O primeiro debate de uma eleição costuma ser um termômetro do que virá pela frente. O que se viu no debate da Rádio Gaúcha foi uma estratégia clara de Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) isolarem o vice-governador Gabriel Souza (MDB), para que não possa se defender das críticas e seja obrigado a debater com Marcelo Maranata (PSDB), o franco-atirador que não tem nada a perder. Os dois só debateram com Gabriel quando ele os escolheu para o confronto ou quando não restou alternativa.
Juliana e Zucco, que lideram as pesquisas de intenção de voto, querem se enfrentar no segundo turno, porque temem que, se a disputa for com Gabriel, ele — por estar mais ao centro — herde os votos do adversário que não se classificar. Por ser o representante do governo, o vice-governador foi alvo dos três candidatos, que não pouparam críticas ao governo de Eduardo Leite.
Mesmo com perguntas focadas em temas da vida real nos dois primeiros blocos, faltou profundidade aos candidatos nas respostas. Com promessas abundantes e acenos como aumento salarial para servidores, obras de infraestrutura e mais recursos para a saúde, faltou deixar claro como fazer diante de um orçamento apertado, que prevê déficit de mais de R$ 4 bilhões em 2027.
Curiosamente, o déficit foi apontado por Zucco, Juliana e Maranata como sinal de que as contas não estão arrumadas, mas nenhum dos quatro apresentou propostas concretas para enfrentar a realidade das finanças.
Zucco chegou a dizer que vai prorrogar o Funrigs, como se a suspensão do pagamento da dívida por mais tempo dependesse de uma decisão do governador ou de um telefonema para Brasília. Juliana também simplificou a solução do problema das finanças, como se tudo fosse problema de falta de diálogo com o governo federal. Gabriel reiterou o pedido já feito à União para prorrogar por mais um ano a suspensão da dívida para investir num amplo programa de irrigação e recuperação de solo. Falta, no entanto, combinar com o presidente que será eleito em outubro.
O vice-governador também apresentou a fonte de financiamento do "maior programa de formação de técnicos". Seria o dinheiro que, na assinatura do Propag, o programa de renegociação das dívidas, precisa ser direcionado à educação.
Outra fonte mágica de recursos é o fundo constitucional do Sul e Sudeste, uma miragem que depende de aprovação por um Congresso que ainda não foi eleito e que os governadores atuais estão tentando, até agora sem sucesso, fazer vingar. No mundo real, é melhor não contar com um dinheiro que lembra "a renegociação da Lei Kandir" e "a compensação por obras realizadas em estradas federais", que alimentaram os discursos de candidatos no passado.
O que disseram os colunistas sobre o debate
Precisa detalhar
O debate ainda deixou transparecer que os candidatos da oposição desconhecem temas corriqueiros, como o funcionamento do Sistema Único de Saúde, com promessas cujo cumprimento depende mais das prefeituras e do governo federal do que do Estado. O mesmo ocorre na educação, com desconhecimento em relação ao Ideb recém-divulgado e à forma como o indicador é calculado.
Como este foi apenas o primeiro, espera-se que nos próximos os candidatos se mostrem mais preparados para tratar dos problemas do Estado a partir de dados reais. Se a justificativa para o não aprofundamento é a falta de tempo, as sabatinas serão o momento para detalhar projetos e programas e dizer o que fica e o que não fica do governo atual.










