
Com a proximidade da eleição, quase todos os dias pipoca nos meios de comunicação e nas redes sociais o resultado de uma pesquisa de intenção de voto para a Presidência da República, algumas com resultados contraditórios, ainda que convergentes em relação à perspectiva de segundo turno entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Em qual delas acreditar? Em geral, os simpatizantes de um candidato acreditam na que lhes convém — e os concorrentes badalam aquelas em que aparecem melhor na foto.
Sim, na foto. Porque mesmo sendo o maior clichê de uma campanha eleitoral, pesquisa é fotografia de um determinado momento da campanha. Fotografias tiradas no mesmo momento deveriam mostrar um cenário minimante parecido, o que no universo das pesquisas é chamado de “margem de erro”, em geral de dois ou três pontos percentuais para mais e para menos.
O que desnorteia o eleitor é ver que fotografias tiradas nos mesmos dias têm apresentado resultados díspares. Aqui entra um elemento pouco falado, mas que deveria ser informado ao eleitor em letras garrafais: como é feita a coleta de dados.
No passado, os pesquisadores batiam de porta em porta para entrevistar os eleitores selecionados de acordo com o perfil dos votantes, por sexo, cor, religião, escolaridade e faixa de renda. Depois vieram as pesquisas de ponto de fluxo, em que os entrevistadores paravam em bairros previamente selecionados, abordavam os eleitores e entrevistavam um número X de pessoas, de acordo com o perfil da amostra. Até aqui, falamos de entrevistas presenciais, com a possibilidade de o entrevistador olhar no olho do entrevistado.
A insegurança fechou as portas das casas para os entrevistadores — até os do IBGE tiveram dificuldade para realizar o último Censo. Parte dos institutos começou a fazer pesquisas por telefone, usando o número fixo, para não errar no endereço. Com o fim do telefone fixo e a disseminação dos celulares, nova mudança, esta acompanhada de uma nova forma de fazer pesquisas, os questionários pela internet.
Todos os institutos sustentam que com essas novas metodologias é possível filtrar os questionários e reduzir a possibilidade de erro do trabalho robotizado. Será que é mesmo? As diferenças gritantes de resultados mostram que é preciso ter cautela antes de confiar cegamente no resultado de uma pesquisa.
Quando se comparam os resultados de diferentes institutos, tem-se clareza de que é preciso relativizar os números. Porque mesmo admitindo-se que existe um “intervalo de confiança de 95%”, há resultados inexplicáveis.
Todas as pesquisas publicadas precisam ser registradas no site do TSE. Ali são informados os principais dados, como o número de entrevistas, a abrangência (neste caso em uma linguagem pasteurizada que pouco significa para o eleitor comum), a data de realização da coleta, o dia da publicação e — importante — quem contratou o instituto e quanto pagou pelo trabalho, com anexo da nota fiscal.
Quem acompanha esses registros — e são dezenas de pesquisas em andamento todas as semanas — nota que em boa parte dos casos a informação é de que o próprio instituto está bancando. É legítimo questionar se está mesmo ou se há um cliente oculto por trás da contratação.
O que o eleitor pode fazer neste cenário de incerteza? Não dar importância exagerada às pesquisas. Porque o eleitor pode mudar de ideia, boa parte define o voto na última hora e intenção de voto é diferente de voto na urna. Ninguém deveria escolher seu candidato no primeiro turno com base em pesquisas. O sentido da eleição em dois turnos é o eleitor votar de acordo com a sua convicção no primeiro, sem se preocupar com quem tem mais chance de se sagrar vencedor.


