
Com a ressalva de que pesquisas precisam ser analisadas com cautela, especialmente neste ano em que novas formas de coleta de dados estão sendo usadas, é preciso reconhecer que há uma novidade no cenário eleitoral. É a ascensão do médico, escritor e palestrante Augusto Cury, do minúsculo Avante, um partido de escassa capilaridade no Brasil. Divulgadas nesta segunda-feira (31), as pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus mostram que Cury produziu um pequeno furo na bolha da polarização.
Antes de AtlasIntel e BTG/Nexus detectarem o crescimento de Cury nas intenções de voto, seu nome começou a aparecer em diferentes bolhas da internet — de empresários a jovens que se perguntavam “quem é esse cara do qual está todo mundo falando?”.
Todo mundo é um exagero, naturalmente, mas na semana passada Cury foi quem mais ganhou seguidores no Instagram, atrás apenas do perfil da cantora country Dolly Parton, que morreu no dia 25 de agosto.
O que dizem as pesquisas? A do BTG/Nexus coloca Cury com 11% das intenções de voto, um salto de nove pontos em relação ao levantamento anterior. Nessa mesma pesquisa, o presidente Lula caiu de 41% para 39% (dentro da margem de erro) e Flávio Bolsonaro perdeu quatro pontos (de 37% para 33%). Ronaldo Caiado (PSD) se manteve nos 5%, assim como Renan Santos (Missão) em 3%. Romeu Zema caiu de 3% para 1% e o resto ficou abaixo de 1%.
Na AtlasIntel, Lula tem 43,4%, Flávio, 33,7% e Cury subiu para o terceiro lugar com 7,8%, empatado com Renan (7,6%). Caiado e Zema ficaram para trás.
Como explicar a ascensão de Cury? Não dá para atribuir à entrevista ao Jornal Nacional, feita na noite de sábado (29), quando a maioria das entrevistas já tinha sido feita. Mais provável que quedas de Lula e Flávio tenham relação com a entrevista.
A audiência do debate da Band (baixa) também é insuficiente para explicar o salto, se ele realmente ocorreu. A hipótese mais provável é subjetiva: parte dos brasileiros incomodados com a polarização entre Lula e Flávio encontrou um outsider para chamar de seu.
Cury vive da palavra. É mestre na autoajuda. Natural, portanto, que consiga encantar plateias desencantadas com a política, mesmo que suas propostas sejam superficiais e, em alguns casos, flertem com a fantasia, como se viu no Jornal Nacional.
Falta pouco mais de um mês para a eleição. Lula e Flávio vão continuar se atacando — e o presidente sendo atacado por todos. As duas campanhas terão de encontrar uma estratégia para lidar com Cury, levando em conta a tradição de uma parte significativa do eleitorado brasileiro de votar no improvável, desde que diga o que ele quer ouvir. Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018.




