
Assim que saiu a decisão do governo de Donald Trump de impor tarifas de 25% a produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, o tema — que é de natureza econômica — se espalhou para o território da política. Nem poderia ser diferente, dado que o primeiro tarifaço começou como retaliação dos Estados Unidos ao processo no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro foi julgado e condenado.
À época, seu filho Eduardo Bolsonaro gabou-se de ter conseguido, graças às boas relações com próceres do governo Trump, um castigo para o Brasil. Ao tarifaço somava-se a aplicação da Lei Magnistsky contra o ministro Alexandre de Moraes e a suspensão do visto de entrada para outros membros do Supremo Tribunal Federal e do governo Lula.
Nada disso impediu que Bolsonaro e outros envolvidos na intentona golpista fossem condenados. O tarifaço de 50% caiu por decisão da Justiça dos Estados Unidos, mas o governo Trump encontrou outro caminho para taxar as exportações brasileiras. E é esse caminho tortuoso que incendeia a campanha eleitoral, graças a uma palavrinha de três legras, que todo eleitor conhece: o Pix.
Está escrito na "investigação" do governo dos Estados Unidos contra o que seriam práticas comerciais nocivas do Brasil o uso do Pix, que prejudica as empresas de cartões de crédito. Não é o único problema, naturalmente, mas esse é o de mais fácil tradução numa campanha eleitoral. E é isso que o presidente Lula está fazendo ao debitar o tarifaço na conta da família Bolsonaro, como fez na primeira manifestação após o anúncio das novas tarifas.
Flávio Bolsonaro teve o azar de se encontrar com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rúbio, às vésperas da divulgação dos resultados da investigação que resultou no tarifaço. O candidato do PL diz que pediu a Trump para não adotar a sobretaxa. Dias depois da visita, reiterou esse pedido em carta e, mais tarde, na audiência pública em que o governo brasileiro contestou ponto por ponto as conclusões sobre práticas desleais nas relações bilaterais.
Aplicadas as taxas, Flávio transfere para Lula a culpa do tarifaço. Acusa o presidente brasileiro de não saber negociar e se escuda nas palavras de Rúbio, de que Lula não negociou de boa-fé com os Estados Unidos e "colocou o próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro e que as tarifas são o preço por isso".
Flávio se apresenta como o único candidato capaz de conversar com o governo Trump, mas seu discurso e as manifestações entreguistas do irmão mais atrapalham do que ajudam, como mostrou a pesquisa Quaest.
O que os Estados Unidos mais querem nem é o Pix, mas as terras raras, para reduzir a dependência da China, mas Lula acenou com uma negociação para, em seguida, dizer a outros parceiros comerciais — incluindo a China — que o Brasil está aberto a parcerias para exploração de minerais críticos. Foi o que bastou para apagar o fogo de palha das declarações recíprocas de simpatia dele e de Trump.
Correndo por fora
Bem atrás nas pesquisas, Ronaldo Caiado aproveitou a troca de acusações entre Lula e Flávio para culpar os dois pelo tarifaço, dizendo que a polarização prejudica o Brasil. Caiado alertou que setores inteiros da indústria brasileira podem quebrar com as medidas impostas pelos Estados Unidos.
No X, Caiado escreveu: "O mais triste, Lula não tem capacidade para dialogar e o outro candidato está preocupado com a eleição, não com o Brasil. A polarização está saindo muito cara para as famílias e para o país!".
Também na rabeira das pesquisas, o ex-governador de Minas Romeu Zema (Novo) condenou o tarifaço e empurrou toda a culpa para Lula.
— O governo brasileiro errou nas negociações, criando atritos desnecessários e adotando um discurso eleitoreiro. Se tivesse agido de maneira técnica e responsável, poderia ter evitado uma retaliação que, de qualquer forma, não se justifica — disse Zema em um vídeo publicado nas suas redes sociais.





