
O jornalista Henrique Ternus colabora com a colunista Rosane de Oliveira, titular deste espaço.
Apesar de o debate entre pré-candidatos ao Piratini promovido pela Granpal ter foco em temas caros à Região Metropolitana de Porto Alegre, o protagonismo ficou para a troca de farpas entre Gabriel Souza (MDB) e Luciano Zucco (PL). O embate já aguardado entre os dois permitiu que Juliana Brizola (PDT) e Marcelo Maranata (PSDB) fossem menos confrontados e assim puderam explorar melhor suas ideias e propostas.
Realizado pelo jornal Correio do Povo e Rádio Guaíba, o debate lotou de prefeitos e aliados o Espaço Caldeira, no Instituto Caldeira, no início da tarde desta terça-feira (16). Logo na primeira pergunta, Zucco foi sorteado para responder sobre resíduos sólidos e evitou o embate com Gabriel ou Juliana, escolhendo Maranata para comentar — a opção se repetiria no bloco seguinte.
Na sequência, em pergunta sobre desastres climáticos e proteção do Estado, Gabriel escolheu Zucco para comentar e junto vieram as primeiras alfinetadas. Na sua resposta, o vice-governador destacou que o Estado está mais preparado para enfrentar nova calamidade e ressaltou a importância de dar continuidade à atual gestão para garantir o andamento das obras em execução.
— Me parece arriscado que aqueles que só criticam assumam o governo, porque isso pode colocar em risco o andamento dos projetos — sugeriu Gabriel.
— Vamos trabalhar a prorrogação do Funrigs. Para garantir essas obras temos um valor destinado de R$ 6,5 bilhões para proteção contra as cheias. O candidato do governo, que fala bonito e gosta de decorar números, depois vou falar alguns para ele. Por que o governo não entrega obras no prazo e gasta R$ 170 milhões em marketing? — questionou Zucco, que teve de ouvir resposta:
— Quero agradecer o deputado por dizer que eu falo bem, porque a recíproca não é verdadeira. Já repassamos recursos aos prefeitos, atualizamos anteprojetos de obras de engenharia complexas. Gestão não se terceiriza, como o senhor disse — replicou Gabriel, dando a tônica das provocações que viriam nos próximos blocos.
Espaço para ideias
Na pergunta sobre saúde, Maranata e Juliana tiveram tempo para falar de propostas para reduzir filas na saúde, sem poupar o governo do Estado de críticas sobre o programa Assistir e o não cumprimento do investimento mínimo constitucional de 12% na área.
— Quem paga a conta da alta complexidade? Os prefeitos. Vamos fazer uma regionalização da saúde, criando sete regiões do Estado, para ter um ambiente em que a população não ande tanto para ser atendida. Teve caso de paciente de Torres que foi a São Borja, não pode atravessar o Estado para fazer um exame — criticou Maranata.
— Vamos usar o programa pró-hospitais, que pode injetar até R$ 800 milhões na saúde. Temos que priorizar hospitais da Região Metropolitana. Assistir prejudicou hospitais da região, tirou R$ 200 milhões daqui. Precisamos tratar o Assistir olhando para a produtividade — defendeu Juliana.
A pedetista voltaria a fazer críticas à atual gestão estadual quando questionada sobre outros temas, admitindo que os governos de Eduardo Leite e José Ivo Sartori tiveram avanços, mas enfatizando que o Estado pode entregar melhores resultados na saúde e na educação. Maranata ressaltou muito sua trajetória como prefeito de Guaíba para se mostrar solidário às dores dos municípios. Ele entende ser o único pré-candidato que tem o conhecimento real sobre os problemas enfrentados na ponta.
Críticas e estratégias
Ao longo de todo o debate, Juliana repetiu ser a única candidata que preza pelo diálogo e que está disposta a conversar com governantes independentemente do partido e da ideologia. Ao responder sobre o subfinanciamento dos municípios, disse que será "muito incomodativa" em Brasília.
— Nosso pacto federativo concentra muita verba na União, um pouco no Estado e nada nos municípios. Precisamos deixar nossas diferenças ideológicas de lado e ir a Brasília buscar tudo o que o Rio Grande tem direito — defendeu Juliana.
— Concordo com quase tudo que a Juliana falou, exceto quando diz que não gosto do diálogo. Ao contrário, minha vida inteira foi de diálogo. Não me coliguei com nenhum partido radical de esquerda como foi o caso da Juliana — rebateu Gabriel.
— Eduardo Leite me apoiou quando fui candidata a prefeita de Porto Alegre, pra tu ver como não tenho nada de radical. Vocês tiveram 12 anos para articular a revisão do pacto federativo em Brasília e não fizeram, por que vamos acreditar que vão fazer agora? Precisamos parar de chamar de extrema isso, extrema aquilo, e trabalhar.
"Método esponja seca"
Questionado sobre a dívida do Estado com a União, Zucco escolheu Gabriel para comentar sua resposta. O pré-candidato do PL disse que, para além de aderir a programas de renegociação, o governo precisa gerir melhor os recursos próprios.
— Temos que gastar melhor o que a gente arrecada. Fazer PPP e concessões, mas não essa que ninguém quer, do rei do pedágio. Acessar financiamentos internacionais. Vamos renegociar a dívida, não só o saldo, mas a forma — indicou Zucco.
— É a renegociação que permite ou não que o Estado pague o Devolve ICMS para mais de meio milhão de famílias. Pode ser um assunto complexo, mas muda a vida das pessoas. Minha pergunta ao candidato Zucco, em primeiro lugar, vai aderir ao Propag ou não? O que vai fazer com as dívidas garantidas? E terceiro, qual Funrigs o senhor quer prorrogar nesse contexto?
— Leite votou no Lula. PT votou no Leite. Os dois são governo e não resolveram até agora. Vamos aderir ao Propag. Fico me perguntando o desespero desse governo que não tem capacidade política, fica falando e não vai a Brasília negociar. Candidato já falou em outra oportunidade que números são pessoas. Pessoas são abraço, carinho, querem entender o que está acontecendo. Esse é o governo que fala demais e faz pouco — respondeu Zucco.
Mais tarde, quando questionado sobre logística e mobilidade, Gabriel aproveitou o início da resposta para alfinetar Zucco mais uma vez:
— Se o Zucco quiser posso dar um minuto para ele para responder a pergunta sobre a dívida do Estado com a União que ele não respondeu. Falou, falou, usou o método esponja seca: aperta, aperta e não sai uma gota d'água.
Impressões
Ao final do debate, a avaliação entre interlocutores das quatro candidaturas é de que o enfrentamento entre Gabriel e Zucco tomou conta do debate. Juliana, que teve bom desempenho nos primeiros blocos, com respostas na ponta da língua, acabou ofuscada na metade final pelos oponentes. Já Maranata, que direcionou suas respostas aos prefeitos, tentou aproveitar o espaço sem fazer enfrentamentos diretos.


