
Enquanto a bola rola nos gramados dos Estados Unidos, do México e do Canadá, e a maior preocupação dos brasileiros parece ser se Neymar ou Endrick vão entrar em campo em algum momento, a copa franca de Daniel Vorcaro segue revelando iniquidades que exigiriam um diagrama atualizado a cada 24 horas ou menos. E por envolver figuras de diferentes partidos e instituições, o escândalo corre o risco de ser esquecido sem que os culpados sejam punidos.
Rotos e esfarrapados não poderão acusar o adversário sem lembrar que o Banco Master foi eclético na corrupção. A dúvida deste final de outono é quem serão os próximos alvos das operações da Polícia Federal, desencadeada a partir da quebra do sigilo dos oito telefones de Vorcaro e dos depoimentos dele e dos parentes presos.
Como os escândalos se sucedem com velocidade impressionante, muita gente já esqueceu das manobras de Dias Toffoli para boicotar a investigação. Não fosse a imprensa, o caso já teria sido abafado. Toffoli foi obrigado a abrir mão da relatoria do Caso Master e o ministro André Mendonça assumiu seu lugar.
O rumo da investigação mudou, mas ainda falta esclarecer muita coisa, a começar pelo papel do ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que só não se enredou mais porque o Banco Central impediu o Banco Regional de Brasília de comprar o Master já completamente bichado. Mesmo assim, o BRB comprou papéis podres e o prejuízo vai acabar na mão do contribuinte, mais uma vez.
Falta aprofundar a investigação sobre o dinheiro repassado a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para fazer um filme mais caro do que vários ganhadores do Oscar, sem que as despesas tenham sido comprovadas. Falta esclarecer a denúncia publicada na revista Veja sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que teria recebido dinheiro numa conta no Exterior. Falta uma batida em endereços de figurões que receberam dinheiro ou presentes caros e ainda não receberam a batida da Polícia Federal ao amanhecer.
As extravagâncias de Vorcaro seriam só mais um caso de milionário excêntrico jogando dinheiro para cima, não fosse a teia de relacionamentos com figuras públicas de diferentes escalões. E se fosse dele o dinheiro que usou para pagar viagens, hotéis, jatinhos, bebidas e prostitutas.
Foi com o dinheiro dos investidores, em parte cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito, que Vorcaro comprou quem estava à venda. Dinheiro de fundos de pensão que deveriam bancar a aposentadoria de servidores públicos, como os do Rio de Janeiro e do Amapá, foi desviado para rechear contas no Brasil e no Exterior, financiar filme, comprar apartamento, pagar por serviços fictícios.
Pode o cabeça de um esquema dessa magnitude ser beneficiado por um acordo de delação premiada? A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República entenderam que não, porque o que ele se dispôs a contar já está desvendado ou prestes a virar mais uma fase da Operação Compliance Zero.
Aliás
É preciso ser muito devoto (ou ingênuo) para acreditar que Jaques Wagner pediu a Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, comprar um apartamento de R$ 2,5 milhões que, depois, ele recompraria para doar à filha.




