
O jornalista Henrique Ternus colabora com a colunista Rosane de Oliveira, titular deste espaço.
O que começou como uma investigação de emprego de funcionário fantasma pela bancada do Novo, na Câmara de Porto Alegre, acabou em denúncia de improbidade administrativa contra o vereador Ramiro Rosário (Novo), apresentada pelo Ministério Público Estadual. A coluna teve acesso à decisão da juíza Fernanda Ainhorn, que mandou suspender, em caráter liminar, o uso de uma plataforma usada pelo então assessor parlamentar Antonio Gorlatti para planejar a campanha de Ramiro a deputado estadual. O caso corre em segredo de Justiça.
O MP anexou um relatório de atividades produzido do mês de abril de 2025 por Gorlatti para provar que não era fantasma. Nesse relatório ele detalha o projeto "Gestão da base de dados e desenvolvimento da plataforma SAGGA", definida pelo MP como a "espinha dorsal tecnológica da campanha".
Lotado na bancada do Novo, Gorlatti morava na Espanha. Ao investigar a denúncia de que seria CC fantasma, o Ministério Público descobriu que o trabalho não se relacionava à atividade de vereador, mas à de pré-candidato a deputado.
Entre as atividades realizadas, apresentadas no relatório, estão "planejamento estratégico — campanha estadual 2026" e "estruturação da campanha e cronograma". A partir de dados e insights gerados pela plataforma SAGGA, o relatório descreve a elaboração de um documento detalhado com o planejamento de campanha de Ramiro Rosário, definindo posicionamento político, referenciais estratégicos e valores da campanha.
Um dos itens apresenta uma estimativa potencial de que Ramiro fará cerca de 50 mil votos na eleição de outubro, quando concorrerá a deputado estadual. Também projeta metas específicas, como de obter metade dessa votação em Porto Alegre. A plataforma ainda desenvolveu estrutura de campanha e um cronograma de atividades.
Na decisão que suspendeu o uso da ferramenta pelo gabinete, a magistrada explica que o cerne da questão é a "possível utilização da máquina pública (servidores e bens) para uso de tecnologia voltada a sua candidatura, resultando em vantagem indevida ao réu".
"Destaco que, ao menos por ora, não há indicativo de que o projeto ou a plataforma sejam de propriedade pública. Entretanto, a utilização nas dependências da Câmara Municipal por servidores públicos remunerados pelo erário e em horário de expediente não se mostram adequados, devendo ser coibidos", diz trecho do despacho.
A promotoria pediu a suspensão, de maneira liminar, do uso da plataforma e da execução do projeto que envolve a ferramenta. A magistrada que assina a decisão ainda reforça que a medida postulada não está "expressamente prevista na Lei de Improbidade Administrativa", mas que há a possibilidade de "adoção de medidas atípicas para garantir a eficácia do processo quando há risco de dano irreparável".
"Gabinete modernizado"
Em setembro de 2025, uma publicação no site da Câmara Municipal, assinada pela equipe de imprensa de Ramiro Rosário, fala sobre a aposta do vereador em inteligência artificial para modernizar serviços do gabinete.
O texto diz que "desde o início de 2025, a equipe conta com o trabalho de Antonio Gornatti, estrategista em dados e transformação digital, que lidera um projeto de inteligência artificial voltado a automatizar o atendimento e melhorar a resposta às demandas da população".
Contraponto
À coluna, o vereador explicou que não houve uso indevido da plataforma. Diz que a situação ocorreu um ano e meio antes da eleição, e que aproveitou a ferramenta que tentava implementar para modernizar ações do gabinete para pesquisa de informações na base de contatos eleitorais, como eventuais candidatos já costumam fazer em outros programas no computador.
Segundo Ramiro, que se diz um entusiasta da inteligência artificial para aprimorar o serviço público, a plataforma não está mais em uso pelo gabinete.
— Estou muito tranquilo porque não houve nada de ilegal e tenho certeza de que o caso, que não tem decisão judicial definitiva, vai ser arquivado. O trabalho com Antonio já terminou e por isso ele até foi exonerado. O texto do relatório que fala em eleições ficou mal colocado, mas temos todas as provas e registros que comprovam o uso adequado da plataforma — afirmou Ramiro à coluna.





