
Para não ser tragado pelo escândalo do Banco Master a pouco mais de três meses da eleição, o presidente Lula terá de rifar um amigo e conselheiro de longa data, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). Deveria ter partido de Wagner a iniciativa de pedir para sair do cargo, mas, como não o fez até agora, Lula terá de descartá-lo.
Ainda que trocar o líder do governo não garante blindagem na campanha, Lula não poderá esperar o fim das investigações com a desculpa de que não quer fazer prejulgamentos.
O que a Polícia Federal descobriu na investigação e o que foi encontrado na operação de busca e apreensão nesta quinta-feira (18) são indícios muito fortes de uma ligação promíscua entre Wagner e Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.
A imagem dos dólares enfileiradinhos junto a uma coleção de relógios, divulgada pela Polícia Federal, lembra as malas de dinheiro de outro baiano, Geddel Vieira Lima, um dos próceres do MDB em décadas passadas. São US$ 49 mil, cuja origem até o momento o senador não explicou.
À imagem dos dólares se soma outra, a do edifício Poème Horto, onde a Polícia Federal identificou operação suspeita na compra de um apartamento de mais de R$ 2 milhões que seria presente do Master para Wagner, escriturado em nome de um laranja. São suspeitos os repasses milionários do Master para a empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador petista.
E há os mimos tão ao gosto de Vorcaro para adular seus políticos de estimação, como o pagamento da viagem e dos ingressos para a filha e a neta do senador assistirem a um show da cantora Taylor Swift nos Estados Unidos.

Jaques Wagner foi governador da Bahia e sua relação com Augusto Lima vem de longe. Desde que eclodiu o escândalo do Master, sabia-se que chegaria o dia de compor o mosaico envolvendo Wagner. Porque era público que tinha atuado como uma espécie de assessor de Vorcaro e indicado Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, e Ricardo Lewandowski, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, como consultores.
A demora na reação de Wagner indicia dificuldade para explicar essa teia de relações, favores e benesses que, de acordo com o despacho do ministro André Mendonça, estão no escopo da operação de hoje.
Desde o início se diz que o escândalo do Master é pluripartidário. O PT da Bahia deu sua contribuição para tirar do presidente Lula um dos trunfos que teria na eleição contra Flávio Bolsonaro, o de dizer que ele pediu e recebeu dinheiro de Vorcaro para financiar o filme sobre a vida do pai. Porque PT, PL, PP e União Brasil estão no mesmo saco de gatos.
Aliás
Se há algum motivo de alegria para os brasileiros no escândalo do Banco Master é a constatação de que a Polícia Federal está agindo com independência, sem poupar políticos ligados ao presidente da República ou aliados que podem se vingar boicotando votações no Congresso. O diretor-geral da PF, delegado Andrei Rodrigues, cantou essa pedra na última entrevista ao Gaúcha Atualidade.

