
É preciso ir à Fronteira Oeste e escutar com atenção as vozes de sotaque carregado para entender as dores e as demandas de quem não consegue se fazer ouvir por quem tem poder de decisão. No encontro do Fórum Democrático da Assembleia Legislativa, que lotou o plenário da Câmara de Vereadores de Uruguaiana, nesta sexta-feira (22), vozes de diferentes municípios se uniram para clamar obras que são consenso na região.
De todas, nenhuma é mais urgente do que o Hospital Universitário, com 195 leitos, incluindo UTI adulta e pediátrica. A professora Cheila Denise, diretora do campus Uruguaiana da Unipampa, detalhou o andamento do projeto e o envolvimento de todos os segmentos para que saia do papel. Além de atender a população que hoje depende da "ambulancioterapia", o hospital permitirá aos alunos do curso de Medicina da Unipampa o exercício da prática médica, sob orientação dos seus professores.
O projeto executivo será bancado por emendas parlamentares e pelas prefeituras, mas a obra de R$ 300 milhões precisará de recursos para sair do papel e acabar com o calvário de quem hoje precisa viajar centenas de quilômetros até Porto Alegre, Ijuí ou Santa Maria para fazer tratamentos de média e alta complexidade.
Na plateia, a professora aposentada Maria Medianeira, 80 anos, colhia assinaturas em um livro de capa preta no qual registra o apoio de quem se compromete a trabalhar pelo Hospital Universitário, que será custeado pelo governo federal.
Quando a batalha começou, dona Medianeira ouviu a sugestão para que fosse se queixar com o bispo — e ela foi. A primeira assinatura no livro é do hoje arcebispo de Cascavel (PR), Dom José Mário Scalon Angonese. Dezenas de páginas adiante, o presidente da Assembleia, Sergio Peres, assinou o livro que é um símbolo da unidade em defesa do hospital.
O Hospital Universitário não é o único projeto de consenso da Fronteira Oeste. Lado a lado está a duplicação da BR-290, hoje uma estrada saturada pelo tráfego intenso de caminhões que vão e vêm transportando cargas entre o Brasil e Argentina. Outras rodovias federais estão na lista de prioridades para recuperação, caso das BRs 285 e 472, assim a como a ponte do Ibicuí e a duplicação da travessai Getúlio Vargas, sobre o Uruguai, entre Uruguaiana e Paso de Los Libres.
A mesma região que exulta com o sucesso dos free shops terrestres e pede a ampliação da cota de US$ 500 para US$ 1 mil implora por uma mudança constitucional que reduza a faixa de fronteira de 150km para 10km. O que os líderes da região querem é derrubar as barreiras a determinado tipo de investimento na faixa de fronteira, como os de infraestrutura estratégica. O entendimento é de que essas restrições são incompatíveis com o próprio conceito de Mercosul e travam o desenvolvimento regional.
Na agenda da Fronteira Oeste ainda estão questões que podem parecer menores, mas são incompreensíveis para os moradores. É o caso da lei que proíbe a pesca de peixes como surubi e dourado no lado brasileiro, enquanto a atividade é permitida no lado argentino, o que acaba fazendo o Brasil perder para o país vizinho turistas que praticam a pesca esportiva.






