
No dia em que, de dentro da cadeia, o ex-presidente Jair Bolsonaro escolheu o filho Flávio como candidato ao Planalto, enterrou o nome mais promissor da direita para a eleição deste ano, o do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos). Brasília inteira sabia que Flávio era um candidato mais frágil do que Tarcísio e, por isso, em um primeiro momento boa parte do PIB acreditou que era só jogo de cena. Que Bolsonaro pai estava querendo garantir relevância ao próprio nome para, ali adiante, o PL indicar Flávio ou Michelle como vice de Tarcísio.
Naquele momento, início de dezembro, Tarcísio articulava uma candidatura presidencial, mas usava a tática do quero-quero, ave símbolo do Rio Grande do Sul, de cantar para um lado quando o ninho está para outro, a fim de desviar a atenção dos predadores. Fiel a Bolsonaro, o governador esperava contar com o aval do ex-presidente, mas foi surpreendido com o lançamento de Flávio e optou por não brigar. Seguiu dizendo que era candidato à reeleição, mas pouca gente acreditou.
Passaram-se as semanas e Flávio começou a aparecer bem nas pesquisas, enquanto Tarcísio murchava como candidato a presidente. As mesmas pesquisas indicavam vitória no primeiro turno em São Paulo. O verão começou e terminou com Flávio cada vez mais candidato.
O governador Eduardo Leite, que tinha se conformado com a ideia de não ser candidato, porque sabia que Tarcísio era o plano A de Gilberto Kassab e Ratinho Júnior a segunda opção, viu renascer a esperança de ser o escolhido quando o governador do Paraná desistiu.
Veio o período limite para a desincompatibilização e Tarcísio não renunciou, fechando definitivamente a porta para a candidatura ao Planalto. O PSD escolheu Ronaldo Caiado, que renunciou ao governo de Goiás, e Leite decidiu cumprir o mandato até o fim. Romeu Zema renunciou em Minas, mas nem ele nem Caiado decolaram.
Flávio seguiu bem nas pesquisas, chegando ao empate com Lula no segundo turno e até aparecendo ligeiramente à frente em alguns levantamentos, até virem à tona suas relações (sempre negadas) com Daniel Vorcaro.
Antes da divulgação das primeiras pesquisas feitas após a publicação da reportagem do Intercept Brasil, a direita não-bolsonarista se pergunta se há tempo para construir um novo nome ou se convém apostar em Caiado ou Zema, que na última Quaest estavam com 4%. Ou, ainda, se é Flávio quem tem mais condições de evitar o quarto mandato do presidente Lula.
Fala-se na senadora Tereza Cristina (PP-MS), na ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e até mesmo em uma chapa com o nome das duas, o que hoje seria uma impossibilidade. A menos de cinco meses da eleição, será muito difícil construir uma candidatura do zero, dado o nível de desgaste dos integrantes do Congresso e a escassez de líderes com algum poder de encantamento.


