
Cada escândalo de corrupção no Brasil tem seus símbolos — e eles conseguem superar a imaginação. Já foi um Elba, carro popular da Fiat, quando Fernando Collor caiu em desgraça e perdeu o mandato de presidente da República. No mais recente escândalo envolvendo um governador do Rio de Janeiro, o símbolo parece um deboche: o bife de ouro pago por Daniel Vorcaro, sempre ele, ao agora ex-governador Cláudio Castro, que acaba de desistir da candidatura ao Senado pelo PL porque sabe que os eleitores não repetirão o erro de votar nele.
Bife de ouro não é figura de linguagem para falar de restaurante caro. É carne bovina folheada a ouro 24 quilates, extravagância do chef turco Nusret Gökçe no restaurante que leva seu nome, o Nusr-Et Steakhouse, em Nova York. Foi nesse templo da gastronomia ostentação que Daniel Vorcaro ofereceu “uma experiência única ao então governador do Rio de Janeiro, hoje alvo da Operação Compliance Zero e com possibilidades reais de entrar para a galeria dos ex-governadores que passaram uma temporada na cadeia.
A Polícia Federal descobriu, pela quebra de sigilo dos telefones de Vorcaro, que ele bancou um jantar de R$ 60 mil para Castro, meses antes de o governo do Rio enterrar R$ 3,6 bilhões do Fundo de Previdência dos servidores estaduais, o RioPrev, no falido Banco Master.
Quanto custa um bife desses, folheado a ouro? R$ 10 mil por prato, segundo a crítica especializada. É um deboche que faz lembrar a farra dos guardanapos, bancada pela Construtora Delta e da qual foi protagonista outro ex-governador, Sérgio Cabral, que depois da temporada na cadeia desfruta da cômoda impunidade numa cobertura do Leblon, um dos bairros com o metro quadrado mais caro do mundo.
"Pede aquela carne de ouro ou alguma especial pra ele ir", escreveu Vorcaro, segundo a Polícia Federal. E como carne de ouro não combina com água sem gás ou Coca-Cola, Vorcaro autorizou seu mandalete a pagar vinho Vega-Sicilia Único 2013 e champanhes como Dom Pérignon On Ice e Cristal.
"Você não existe", agradeceu Castro em uma mensagem carinhosa a Vorcaro, o mão aberta que fazia cortesia a políticos com o dinheiro alheio.
A defesa de Castro sustenta que não houve qualquer ilegalidade. A de Vorcaro também. Por via das dúvidas, o ex-governador comunicou ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que não será candidato ao Senado.
Castro é mais um produto do que se poderia chamar de "dedo podre" dos eleitores do Rio na hora de apertar a tecla da urna eletrônica. De obscuro vereador, virou vice de Wilson Witzel, um juiz eleito com a bandeira do combate à corrupção e cassado em um processo de impeachment por desviar recursos públicos da saúde. Herdeiro do mandato, Castro se elegeu governador, apoiado pela família Bolsonaro, com quem cultiva relações fraternas desde a adolescência.
Essa amizade, somada ao fato de os dois terem ligações com Vorcaro, virou pesadelo para o presidente nacional do PL, também ele protagonista de escândalos de corrupção. O temor é de que, do material apreendido nos endereços de Castro na oitava fase da Compliance Zero, surjam novos elementos para enfraquecer a candidatura de Flávio, já abalroada pelo repasse de R$ 62 milhões de Vorcaro para financiar o filme sobre a vida do pai.





