
É verdade, Antônia. Aquele doce amarelo que a mamãe te mostrou na Casa de Cultura Mario Quintana é um quindim, um doce muito doce, feito com gema de ovo e açúcar. Era o doce preferido do poeta que eu conheci quando estava estudando para ser jornalista.
Ele era um velhinho que escrevia coisas lindas e gostava de moças bonitas, principalmente das loiras de olhos azuis ou verdes.
Pede pra mamãe te mostrar uma foto da Bruna Lombardi e outra da Dulce Helfer. Eram duas musas dele. Já sei que tu vais perguntar o que é uma musa. Musa é quase uma deusa que só de olhar os poetas sentem vontade de escrever versos.
A Bruna é atriz e poeta. O Quintana era apaixonado por ela. E a minha amiga Dulce é fotógrafa. Ela foi a pessoa que mais fotos fez do Quintana. Eles ficaram muito amigos, sabes?
Se um dia tu quiseres conhecer mais o velhinho que morava no Hotel Majestic, onde a Andressa e o Diori te levaram para ver como era o quarto dele, pede para conhecer a tia Dulce.
Ela vai te mostrar fotos do Quintana na Feira do Livro, nas ruas de Porto Alegre e até no último hotel em que ele morou antes de morrer.
Eu conheci o Mario Quintana na Feira do Livro, mas naquele tempo não existia celular. Por isso, não tenho uma selfie com ele. Um dia eu estava tomando sorvete na Rua Andrade Neves e me convidou para sentar na mesa dele. Fiquei até envergonhada, porque não sabia como conversar com um poeta.
Tu sabes o que é uma banana split, Antônia? É uma banana que a gente come com três bolas de sorvete, num pote meio diferentão. Nesse dia o poeta me perguntou:
— O que esse prato te lembra, menina?
— Um barco — respondi.
— Na tua idade, pode parecer um barco a navegar pelos mares. Na minha, lembra um ataúde. Barco, só se for o de Caronte.
Que palavra feia… Nem queira saber o que é um ataúde, Antônia, nem para que serve o barco de Caronte.
Mas não era isso que eu queria te contar. O mais legal é que eu fui trabalhar no mesmo prédio que ele. O poeta escrevia no Correio do Povo, e eu e tio Tailor, que depois virou escritor, trabalhávamos na Rádio Guaíba, um andar acima.
Muitas vezes a gente encontrava aquele velhinho jantando no bar da Maria. Ele comia arroz com ovo frito e tomava água mineral Rainha. Depois, pedia um quindim com café preto.
Viste o copinho de café preto lá no quarto dele na Casa de Cultura? Se tivesse só um quindim no bar, a Maria não vendia para ninguém. Dizia que tinha de guardar para o "seu Mario".

Vou te contar mais uma coisa, Antônia. Quando tinha a idade da Atena, mas era mais baixinha que o Gael, eu achava que todos os escritores já tinham morrido, como Humberto de Campos, Casimiro de Abreu e Olavo Bilac, que estudamos no colégio.
O Quintana foi o primeiro poeta vivo que eu conheci. Ele gostava de andar pela cidade e escreveu um poema lindo, que sempre alguém lembra no aniversário de Porto Alegre. Chama-se O Mapa.
Vou colar aqui para os adultos que estão lendo esta crônica. Crianças da tua idade vão gostar mais de livros como Pé de Pilão e O Batalhão das Letras.
O Mapa
Mario Quintana
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...




