
Antes de chegar às livrarias, o livro Leonel Brizola por ele mesmo, da Editora Insular, de Santa Catarina, já está envolvido em uma polêmica de direito autoral. As autoras são a ex-deputada Juliana Brizola e a jornalista Rejane Guerra, amiga e assessora de imprensa da neta de Leonel Brizola. Do outro lado está a historiadora Silvana Moura, que fez a entrevista de 4 horas e 20 minutos com o ex-governador em 1996 ao lado de Ney Eduardo Possapp d’Ávila, para o projeto de História Oral.
A transcrição da entrevista na qual Brizola fala de seu passado e de suas ideias é a base do livro, ilustrado com fotos históricas. A professora Silvana aparece nos créditos como responsável pela “transcrição da entrevista”. Ela procurou a coluna para reclamar do que chama de “apropriação indébita por Juliana Brizola”. Contou que por 30 anos guardou as fitas da entrevista e sempre buscou uma editora que se interessasse por publicar a história.
— Ano passado, finalmente consegui que a Editora Insular publicasse a entrevista. Ato contínuo, Juliana Brizola e Rejane Guerra exigiram do editor que seus nomes constassem na capa, alegando que as fitas pertencem a Juliana, e ele cedeu — relatou a historiadora.
Procurada pela coluna, Juliana repassou para Rejane a tarefa de responder à professora Silvana. A versão da jornalista é de que, há mais de 10 anos, Juliana entregou a ela “um caderno amarelado com a transcrição da entrevista”, que recebera do ex-deputado Romeu Scaglia Barleze (1929-2015).
Rejane, que já assinara com Juliana outro livro sobre Brizola (com frases do ex-governador e depoimentos sobre ele), decidiu transformar o relato em livro. A ideia era editar para o centenário do nascimento de Brizola, em 2022, mas as duas não conseguiram financiamento.
Rejane diz que conversou com Silvana e sugeriu que trabalhassem juntas, mas a historiadora não aceitou a sugestão de um livro ilustrado. O editor, então, teria proposto “juntar os projetos”. Silvana escreveu a orelha, mas diz que nunca autorizou que o livro saísse com Juliana e Rejane no papel de organizadoras.
— Estamos diante de um caso de impostura intelectual — reclama a historiadora, que se considera “apagada da história”.
Rejane rebate dizendo que tanto ela e Juliana reconhecem o papel de Silvana que o livro sairá com um QR Code e que quem quiser poderá ouvir a entrevista. Silvana publicou um texto em seu perfil no Facebook com o título “Como nascem as falsificações históricas” e diz que, na versão distribuída à imprensa por Rejane, “as fitas originais foram encontradas em Florianópolis com o editor Nelson Rolim de Moura, como se tivessem ido passear em Floripa”.
“As fitas originais sempre estiveram comigo, são únicas e foram levadas para Florianópolis pelo professor Nildo Ouriques, a meu pedido, e entregues ao editor em fevereiro de 2024”, escreve a historiadora, que publicou um livro sobre a história da Câmara de Carazinho e mencionou a entrevista tratada como “inédita” por Juliana e Rejane.




