
De bilhetinho em bilhetinho, de visita em visita, o ex-presidente Jair Bolsonaro vai construindo as suas “memórias do cárcere”, que em nada lembram o icônico livro de Graciliano Ramos, até porque ele não lê romances e quem não lê, em geral, escreve mal. Os fragmentos de articulações feitas diretamente da Papudinha deram ao ministro Alexandre de Moares os elementos para concluir que o estado de saúde de Bolsonaro não é tão grave a ponto de justificar uma transferência para a prisão domiciliar.
De fato, a despeito da narrativa dramática do filho Carlos, cada visita que entra sai com algum recado político. Com o filho Flávio, que escolheu para ser o candidato a presidente da República, Bolsonaro orientou alianças para o Brasil inteiro, incluindo a decisão de rifar o ex-aliado Esperidião Amin (PP) em Santa Catarina para garantir ao filho Zero Dois a vaga de candidato ao Senado, já que Caroline De Toni (PL) não se deixou rifar.
Do cárcere, Bolsonaro pediu que Michelle seja poupada de críticas, ela que é alvo da indignação dos filhos dele com outras mulheres. Também do cárcere, pediu que Michelle não se meta em política até o final de março.
Traduzindo, a presidente do PL Mulher deve ser candidata ao Senado pelo Distrito Federal, mas que não se intrometa nos assuntos masculinos, coisa que ela faz regularmente, defendendo nomes que não têm o respaldo de Flavio, Eduardo ou Carlos. A aproximação dela com Nikolas Ferreira e Tarcísio Gomes de Freitas incomoda a família, que não confia em nenhum dos dois.
Aos interlocutores que o visitam na cadeia, Bolsonaro diz que não quer Michelle candidata a cargo executivo porque ela não tem experiência política e teria muita dificuldade. A recomendação, dada ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, é uma resposta às especulações de que a chapa ideal para a direita seria encabeçada por Tarcísio, tendo Michelle como vice.





