
Na época em que estava na faculdade de Jornalismo, na Famecos/PUCRS, nunca pensei em trabalhar na Rádio Gaúcha. Naquele tempo, rádio não era para uma menina como eu. As rádios eram feitas de vozes potentes, majoritariamente masculinas.
Para as meninas, o máximo que se podia esperar era o papel de produtora dos apresentadores consagrados ou de redatora de noticiários. De uma maneira natural, as moças bonitas sonhavam em trabalhar em TV, os rapazes de boa voz se imaginavam na rádio, especialmente nos programas de esportes, e as pessoas comuns, como eu, queriam ser repórteres de jornal.
Formada, acabei trabalhando primeiro em rádio, na Guaíba, onde estavam os grandes nomes que depois migrariam para a Gaúcha. O diretor era Armindo Antônio Ranzolin. Era 1982 e fui contratada como redatora.
Nem ousava pensar em pedir transferência para a reportagem porque não tinha voz. Mesmo assim, na eleição daquele ano fui chamada para cobrir um buraco na escala de apresentadores, durante a madrugada, já que a apuração durava no mínimo uma semana.
Tive uma breve experiência como repórter na Rádio Pampa, mas depois de um ano aceitei o convite para finalmente trabalhar em jornal, no Correio do Povo recém-comprado pelo empresário Renato Ribeiro.
Entrei no Grupo RBS em 1992, como editora de Política e passei a conviver com os ícones da Gaúcha, mas ainda não pensava jogar naquele time de estrelas. Foi no final de 2003, quando assumi a coluna de Política em Zero Hora que recebi o convite para fazer um comentário no Gaúcha Atualidade, apresentado por Ranzolin e Ana Amélia Lemos.
Quando Ranzolin se aposentou, no final de 2006, Geraldo Corrêa me chamou para o maior desafio da minha vida profissional: ser uma das apresentadoras do Atualidade, ao lado de Ana Amélia e André Machado. Fui, porque não sou de deixar o cavalo passar encilhado sem montar.
No início, insegura. Depois, aos poucos, ganhando confiança. E a minha voz? Continuava a mesma, mas sessões de fonoaudiologia me ajudaram a melhorar o que era possível.
André e Ana Amélia optaram pela política e me tornei a decana do programa, com a Carolina Bahia em Brasília e Daniel Scola como âncora.
Scola teve um problema de saúde em plena pandemia, quando estávamos todos trabalhando de casa para manter a rádio no ar. Então, ganhei a Andressa Xavier e a Giane Guerra como companheiras nessa jornada de duas horas diárias.
Eis que chegamos aos 99 anos dessa velhinha querida e eu me sinto cada vez mais convencida de que tudo até aqui valeu a pena. Somos a voz dos que não têm voz e chegamos onde jamais imaginaríamos. Não só pelas ondas da rádio, mas pela internet, em todos os fusos horários.
É muito difícil citar o momento mais inesquecível entre tantos aqui vividos, mas tenho convicção de que nunca fomos tão úteis como na enchente de 2024.
Comunidades isoladas tinham a Gaúcha para se informar. Nossos repórteres se multiplicaram, porque mesmo quem nunca tinha feito um boletim de rádio entrou de onde estava para narrar o que via. Eu vi a água invadir Porto Alegre naquela sexta-feira de maio, do sexto andar do prédio da prefeitura.
Fui a Muçum, Roca Sales, Encantado e Cruzeiro do Sul. Muitas vezes precisei conter a emoção, porque nessas horas é preciso ser forte.
Caminhamos para os 100 anos da Gaúcha e eu não poderia estar mais feliz, como decana do Atualidade, de trabalhar com Andressa Xavier, Giane Guerra, Matheus Schuch e toda equipe que faz o programa, especialmente nossa produtora Kyane Sutelo.
Em dezembro, serão 20 anos de Atualidade, mas antes passarei por mais uma eleição e espero ter energia para compartilhar com os ouvintes a emoção sem igual da apuração.






