
Estava decidida a não falar sobre Maria, a mulher que ficou conhecida como a "noiva do Brad Pitt". Porque, em tese, como diz a canção, "a dor da gente não sai no jornal".
Não deveria sair em sites de notícias, humor ou entretenimento, a menos que Maria estivesse sendo extorquida por um malandro que usou a inteligência artificial para ludibriá-la. Porque aí seria um alerta a outras mulheres que se apaixonam por um ser do mundo virtual e fazem pix para pagar a passagem ou custear um suposto tratamento.
Maria apenas cultiva uma devoção pelo ídolo e sofre de depressão, segundo suas palavras. Nessa paixão, encontrou conforto e conheceu a desgraça ao ser exposta nas redes sociais. Sei que é tentador brincar com a presença do Brad Pitt no Rio Grande do Sul, tomando chimarrão ou comendo churrasco, mas a dor alheia não tem graça nenhuma.
Maria, Maria, Maria… um nome de mulher universal.
Na poesia de Milton Nascimento, "Maria, Maria, é um dom, uma certa magia / Uma força que nos alerta / Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta".
Nem sempre o nome condiciona destino, saudoso Moacyr Scliar. Há Marias felizes e infelizes. Solitárias mesmo quando acompanhadas. Falantes e silenciosas. Alegres e tristes, quase sempre alternando o estado de espírito.
Há Marias que se matam por amor, mesmo quando apaixonadas por um traste que não as valoriza. Há Marias que mantêm casamentos infelizes porque juraram diante do padre que seria para sempre, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença (do corpo e da alma).
Há Marias que sofrem caladas com a violência doméstica e viram notícia quando são feridas ou mortas por aqueles por quem um dia se apaixonaram. Há Marias que denunciam agressões e pedem medidas protetivas.
Há Marias que envelhecem serenas ao lado de seus companheiros. E há Marias que fantasiam com ídolos inatingíveis como Brad Pitt, mesmo tendo lido as entrevistas de Angelina Jolie dizendo que foi um péssimo marido.
Tenho um respeito imenso pela dor da Maria de São Valentim, que no primeiro momento foi chamada de "idosa", essa palavra que não tem nada a ver com ela.
Como todas as ondas de internet, essa também vai passar. E Maria vai curar sua dor sendo verdadeira, fazendo terapia e descobrindo que a fragilidade de hoje será sua fortaleza amanhã.
Porque "é preciso ter força, é preciso ter raça / É preciso ter gana sempre / Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria / Mistura a dor e a alegria”.
Está música do Milton é para todas as Marias cujas dores não saem no jornal.


