
Fosse outro o autor do convite para integrar um Conselho da Paz e cuidar da reconstrução da Faixa de Gaza, a diplomacia brasileira certamente recomendaria que o presidente Lula aceitasse a missão. Afinal, quem pode ser contra a paz naquela região? O problema é que o convite do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não vem acompanhado de uma preocupação legítima com o futuro dos palestinos que tiveram suas casas destruídas pelas bombas de Israel na guerra contra os terroristas do Hamas e pelo resgate dos reféns.
Trump vê a Faixa de Gaza com os olhos de investidor do mercado imobiliário. Ali, onde hoje só se veem ruínas, ele vislumbra arranha-céus, cassinos, resorts e lojas de luxo, no que já chamou de “riviera do Oriente Médio”. O que se prevê para os palestinos, em sua maioria miseráveis, subjugados por extremistas e que hoje dependem da caridade internacional para sobreviver?
Outro problema é que os “conselheiros” têm de entrar com US$ 1 bilhão na reconstrução para ganhar uma cadeira permanente, sem nenhuma garantia de que suas opiniões serão levadas em conta. É preciso considerar que Trump não é eterno, mas hoje se comporta como o Imperador do Mundo. Dita as regras e ai de quem não aceitar.
Ao primeiro que recusou o “convite” para ser conselheiro, o presidente da França, Emmanuel Macron, o republicano acenou com retaliações comerciais — 200% de taxa sobre os vinhos e champanhes franceses, para azar dos consumidores americanos.
Nunca se sabe quanto tempo duram as taxas impostas por Trump como castigo aos que dele discordam. Os produtos da União Europeia tiveram por meia dúzia de dias uma taxa de 10% por não concordarem com a posse da Groenlândia pelos Estados Unidos, que Trump ameaçava conquistar pelo dinheiro ou pela força militar. Um acordo de conteúdo nebuloso teria sido feito, e a taxa caiu sem ter sido aplicada.
No caso do Brasil, que em 2025 sofreu (alguns setores seguem sofrendo) com uma sobretaxa de 40%, aplicada com pretextos que iam da mentira sobre a balança comercial ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, toda cautela é necessária. Seja qual for a resposta, o Itamaraty deverá embalar o conteúdo de forma que não pareça provocação.






