
O problema é o estigma de ser preso na Papuda, mas é indiscutível que o ex-presidente Jair Bolsonaro ficará melhor no novo endereço do que na sede da Polícia Federal, onde ocupava um cubículo de 12,2 metros quadrados. Conhecido por Papudinha, o Núcleo de Custódia da Polícia Militar, no Complexo Penitenciário da Papuda, é incomparavelmente mais cômodo.
Além de sair de uma quitinete com frigobar para uma área equivalente a um apartamento de dois dormitórios (64m²), com pátio, espaço para receber visitas, cozinha com geladeira e cama de casal no quarto, Bolsonaro ainda ganhará atendimento médico 24 horas por dia, banho de sol em espaço privativo, possibilidade de fazer fisioterapia no horário noturno e outros procedimentos recomendados pelos médicos. E estará livre do barulho do ar-condicionado, que os filhos definiam como “tortura”, em uma interpretação muito própria do que seja tortura.
Aqui é preciso abrir um parêntese para lembrar aos filhos de Bolsonaro e aos que dizem que ele está sendo torturado que o tratamento dispensado ao ex-presidente está de acordo com a lei. Tortura era o que o regime militar fazia com os presos políticos no tempo da ditadura. Tortura era o que o coronel Carlos Brilhante Ustra, ídolo de Bolsonaro e dos filhos, fazia com aqueles que ousavam desafiar o regime.
Pergunte-se às famílias dos torturados (e dos que morreram por não resistir à tortura, como o deputado Rubens Paiva) se eles podiam visitar os presos políticos. Pergunte-se a quem foi barbaramente torturada, como Dilma Rousseff e Miriam Leitão, se elas tiveram assistência médica, psicológica ou religiosa.
Prisão não é um ambiente agradável, mesmo quando o preso está em condições dignas — um direito que deveria ser garantido a todos os detentos, em vez de empilhá-los em celas superlotadas.
Na Papudinha, como já tinha na Polícia Federal, Bolsonaro tem garantidos o banho quente, a TV (aberta), o atendimento médico, odontológico, psicológico e religioso, com dois pastores autorizados a visitar o preso. Os nomes de Robson Lemos Rodovalho e de Thiago de Araújo Macieira Manzoni foram indicados pela família e o ministro Alexandre de Moraes deferiu o pedido.
O ministro rejeitou o pedido de prisão domiciliar por não haver na petição da defesa comprovação de que Bolsonaro não pode ficar na PF ou na Papudinha. E autorizou a remição da pena pela leitura, outro direito negado aos presos políticos torturados — a maioria sem julgamento e, portanto, sem condenação. O ex-presidente terá apenas que fazer resenhas dos livros que ler, o que é sempre uma oportunidade para o crescimento intelectual.




