
No dia seguinte à divulgação da notícia de que viajou a Lima na companhia de um dos advogados do diretor de Compliance do Banco Master, Luiz Antonio Bull, o ministro Dias Toffoli “fez a egípcia”. Para quem não é familiarizado com essa gíria, a coluna esclarece. Fingiu indiferença, fez de conta que não era com ele, silenciou diante das críticas. Fez como aquelas figuras da arte egípcia, que olham para o lado e não deu nenhum sinal de que vá acatar as sugestões para se declarar impedido de continuar como relator no processo que envolve a instituição financeira.
Não chega a ser surpresa. Porque Toffoli não demonstra qualquer constrangimento quando flagrado em atitude pouco republicana, nem se considera no dever de dar explicação sobre quem paga as suas viagens. Diferentes episódios em que o ministro tomou decisões controversas — para dizer o mínimo — foram lembrados nesta segunda-feira (8), mas nem ele nem o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, fizeram qualquer manifestação.
Fachin, que já deixou claro seu incômodo com as benesses recebidas por ministros, a ponto de propor a elaboração de um código de conduta, deveria tomar a iniciativa de chamar Toffoli para uma conversa. Quem sabe consiga convencê-lo a abrir mão da relatoria do Caso Master para alguém que comprovadamente não tenha qualquer relação com Daniel Vorcaro e seus sócios. Porque o fato de Toffoli ter decidido avocar para si toda a investigação sobre o Master e impor um dos graus máximos de sigilo depois de ter viajado a Lima na companhia do advogado Augusto Arruda Botelho depõe contra a imagem do Supremo Tribunal Federal.
Desde que tomou posse, Fachin trabalha com a ideia do tal código de conduta, que inacreditavelmente o Supremo não tem. Esse código deveria deixar claro que ministros de tribunais superiores não podem receber presentes caros, sejam relógios ou passagens aéreas de classe executiva, para congressos patrocinados por empresas privadas.
Deveria dizer também que ministros não podem aceitar carona em aviões particulares. Se a viagem for urgente e de interesse público, têm direito a requisitar aviões da FAB. Para ver um jogo de futebol ou participar de um batizado ou casamento em outro Estado, que usem aviões de carreira.
O mesmo código deveria disciplinar as palestras pagas, para assegurar que o convite não mascara um “mimo” para tentar conquistar a simpatia de quem poderá, um dia, decidir o destino da contratante. Outro capítulo precisa tratar dos cônjuges dos ministros (as), para que seus escritórios não sejam contratados pelo simples critério das relações familiares. A esposa de Toffoli já trabalhou para uma das bancas contratadas por Daniel Vorcaro. O escritório Barci e Moraes, da esposa e dos filhos de Alexandre de Moraes, é um dos que prestam serviços ao dono do Banco Master.
Com que isenção os dois poderão julgar o processo envolvendo o banco e seus sócios?



