
Mais velha do que o rascunho da Bíblia, a frase “entrar no ano-novo de pé direito” não tem nada de ideologia política. É uma dessas bobagens que se cristalizam nas crendices, como pular sete ondas, comer romã ou usar roupa de determinada cor para ter sucesso. A agência que atende a conta da Havaianas resolveu inovar, e para vender os chinelos que compramos por R$ 40 (preço médio) e na Europa custam 50 euros, bolou um comercial disruptivo, ainda que óbvio.
Tendo Fernanda Torres como protagonista (ela é a garota-propaganda há algum tempo), a fabricante da Havaianas sugere entrar 2026 não apenas com o pé direito, mas com os dois pés. E se for preciso, com os dois pés na porta (ou na jaca) para abrir caminhos, sem esperar pela sorte. Porque a verdade é que entrar na casa nova, no avião, no carro ou no ano-novo com o pé direito ou com o esquerdo não faz a menor diferença. Quem tem a bênção de ter os dois pés, entra na vida com os dois. Sobe escadas, corre maratonas, anda na areia com os dois.
O texto diz: "Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés. Havaianas, todo mundo usa, todo mundo ama".
No caso das Havaianas, só uma mente perturbada pela radicalização política pode achar que uma empresa está tratando de esquerda e direita quando vive de vender chinelos. Há quem chame as havaianas de sandálias, mas apenas um ou dois modelos para adultos e todos os de crianças pequenas merecem essa classificação, por terem uma alça que passa por trás do calcanhar.
Chinelo é um calçado democrático e barato. No Rio, a cidade que mais recebe turistas estrangeiros, as franquias das Havaianas estão sempre lotadas, porque tem sempre uma cor nova, um modelinho diferente e o conforto que combina com uma cidade quente. Os chinelos vão da praia ao restaurante com uma simples sacudida na areia e ninguém jamais se perguntou se havaianas são de esquerda ou de direita.
Quem ganha com o boicote prometido por líderes de militantes radicais? Uma empresa com sotaque gaúcho, a Grendene, que criou uma concorrente chamada curiosamente de Ipanema — e não de Torres, Tramandaí ou Atlântida. Bom para a Grendene que ganhou propaganda gratuita, sem precisar contratar uma atriz famosa para calçar os seus chinelos. Péssimo para o país, quando se politiza até o calçado que usamos em casa ou nas horas de lazer.




