
A notícia mais impactante do dia foi dada em primeiro lugar pelo jornalista Paulo Cappelli, do portal Metrópoles, e confirmada na sequência por outros veículos e pelo próprio senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ): Jair Bolsonaro escolheu o filho mais velho para ser seu candidato a presidente da República em 2026.
Nas redes sociais, Flávio publicou foto com o pai e escreveu um texto em que citou Deus cinco vezes. Começou confirmando que é o ungido pelo pai: "É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação. Eu não posso, e não vou, me conformar ao ver o nosso país caminhar por um tempo de instabilidade, insegurança e desânimo".
Os aliados já foram avisados, a começar pelo que mais será afetado pela decisão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Tarcísio nunca admitiu ser candidato, exatamente porque está umbilicalmente ligado aos Bolsonaro e sabe que não há lugar para ele na disputa presidencial se o nome de um dos filhos estiver na urna eletrônica.
Nunca admitiu publicamente, que fique claro. Porque em reuniões com políticos de outros partidos as articulações estavam bem avançadas. Uma das recentes reuniões foi com o presidente do MDB, Baleia Rossi, e Tarcísio mostrou-se bem animado com a perspectiva de concorrer a presidente.
Por mais que faltem a Flávio credenciais para uma empreitada desse tamanho, a escolha de Bolsonaro segue a lógica que pauta sua vida pública — a família (dele) em primeiro lugar. E a família não confia em Tarcísio, como tem verbalizado Eduardo Bolsonaro, o filho que poderia ter sido o escolhido, não fosse a estratégia suicida que adotou ao se mudar para os Estados Unidos e conspirar contra o Brasil imaginando que evitaria a condenação do pai.
A escolha de Flávio pode não fazer sentido para os empresários do setor produtivo ou para os operadores do mercado financeiro que preferem Tarcísio (veja-se que a Bolsa despencou e o dólar disparou com o anúncio), mas é a resposta da família diante das chances cada vez mais remotas de aprovação da anistia ampla, geral e irrestrita. A outra forma de Bolsonaro sair da cadeia antes de cumprir a pena é o indulto, que não será dado se Lula for reeleito. Eduardo também não acredita que possa ser dado por Tarcísio, a quem não considera um político de direita, alinhado com os valores conservadores.
Agora se explica até o que parecia inexplicável, a rapidez com que Flávio pediu perdão a Michele Bolsonaro, depois de ter atacado a madrasta por se intrometer na aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará. Se ouviu do pai que é o ungido, Flávio não deve ter interesse em ter Michelle como inimiga na trincheira, ainda mais sabendo que ela é ambiciosa e tem luz própria. Maquiavel não teria mandado fazer diferente do que fez ao pedir desculpas e encher a bola da ex-primeira-dama.
Anúncio mexe no cenário
Quem ganha com a candidatura de Flávio? Em primeiro lugar, o presidente Lula, que em 2022 já conseguiu se reeleger na carona da rejeição de Jair Bolsonaro. O senador tem telhado de vidro (rachadinha, mansão, a tentativa de golpe do pai, as estripulias dos irmãos).
Em segundo, o governador Eduardo Leite, que se filiou ao PSD na esperança de se credenciar como terceira via e que já era dado como carta fora do baralho. O presidente do PSD sempre deixou claro que sua opção número 1 era Tarcísio e a número 2, Ratinho Júnior. Com Flávio na pista e Tarcísio concorrendo a governador, Ratinho tende a disputar o Senado pelo Paraná, onde tem uma eleição certa. Um aliado do governador dá como certo que nem ele nem o pai, o comunicador Ratinho, estão dispostos a brigar com os Bolsonaro.
Seria exagero dizer que se abriu uma porta para Leite. Mais preciso é pensar em uma janela do tipo basculante ou uma fresta no lugar em que até ontem só havia uma parede de tijolos. Nesta mesma sexta-feira (5), Aécio Neves disse na Rádio Gaúcha que Leite seria viável se tivesse continuado no PSDB, e que os tucanos apoiarão um candidato que seja contra Lula, mas faça movimentos em direção ao centro.
No dia em que assumiu a presidência nacional do esgualepado PSDB, Aécio disse que não apoiaria alguém que fosse apenas um “apêndice do bolsonarismo”. Pela descrição, esse candidato não é um filho do ex-presidente. Aécio ainda manifestou sua convicção de que Ratinho, Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil) não são viáveis.





