
Sempre que você vê uma operação da Polícia Federal em que os agentes recolhem dinheiro vivo no cumprimento de medidas de busca e apreensão, o que lhe vem à cabeça? Que a pessoa não confia no sistema bancário ou que não tem como explicar a origem? Que é um avarento que não quer dar dinheiro para os bancos ou um metido a espertalhão que faz negócios ilícitos? De políticos a traficantes, as transações com dinheiro vivo sugerem que estamos diante de alguma delinquência.
Uma pilha de pacotes de real foi encontrada no apartamento do deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara, suspeito de desviar dinheiro das verbas de gabinete. O que disse Sua Excelência? Que está sendo vítima de perseguição política. Que o dinheiro é da venda de uma casa e que não é proibido guardar moeda sonante em casa.
De fato, não é. Mas por que guardar em casa uma dinheirama que poderia estar rendendo no mercado financeiro? No caso de Sóstenes, foram “só R$ 430 mil”, nas palavras dos defensores de políticos do seu campo. Só R$ 430 mil? Guardados em casa, dentro de um saco de lixo, talvez para não chamar a atenção de quem faz a limpeza?
— Quem quer viver de dinheiro de corrupção não mantém dinheiro lacrado. É dinheiro lícito. Eu vendi um imóvel e recebi em dinheiro lacrado, é declarado em meu Imposto de Renda. Eu recebi o dinheiro recentemente e, com a correria do trabalho, acabei não fazendo o depósito — justificou o deputado.
Que correria é essa que faz alguém esquecer de depositar R$ 430 mil recebidos na venda de uma casa? E que comprador é esse que em vez de fazer um Pix prefere levar um saco de dinheiro para o proprietário do imóvel? Mas tem quem se convença com essas explicações, como tem quem acredita nas desculpas esfarrapadas de quem é flagrado com dinheiro na cueca, mas meias ou em malas que enchem um quarto, como foi o caso do ex-deputado Geddel Vieira Lima, do MDB da Bahia.
Sóstenes e o deputado Carlos Jordy, também do PL, são acusados de desvio de dinheiro público. Mas não querem que a Polícia Federal investigue porque consideram “perseguição política”, já que são vozes fortes da oposição.
O jornal O Globo foi checar a declaração de bens de Sóstenes Cavalcante e descobriu que em 2022 ele não tinha patrimônio algum. Sua declaração apresentada à Justiça Eleitoral menciona apenas R$ 4.926,76 de patrimônio, divididos entre duas contas bancárias. Imóvel, nenhum.
Antes de bater na casa de Sóstenes e Jordy, a Polícia Federal fez uma operação que descobriu movimentações superiores à renda de assessores dos dois parlamentares.






