
O jornalista Henrique Ternus colabora com a colunista Rosane de Oliveira, titular deste espaço.
Depois do Vale do Paranhana, foi a vez dos prefeitos do Vale do Sinos declararem formalmente a oposição à proposta de concessão das rodovias do bloco 1. Os gestores municipais criticam a falta de diálogo do Estado e o excesso de pedágios previstos para a região.
Na quarta-feira (5), a Associação de Municípios do Vale Germânico (Amvag) realizou sua reunião mensal, em que a pauta mais tratada foi o projeto da concessão, apresentado no final de outubro pelo governador Eduardo Leite. Dez dos 14 prefeitos da região participaram e teceram críticas ao modelo apresentado pelo Piratini, temendo pelo impacto financeiro negativo que a concessão pode causar aos motoristas e ao comércio da região.
Os prefeitos deixaram o encontro com a intenção de realizar uma reunião ampliada, ainda sem data marcada, que deve reunir os prefeitos dos vales do Sinos e Paranhana e da Serra, além de empresários e líderes políticos da região, para unir forças e tentar conter o avanço do projeto. A ideia é que o governo do Estado participe também, embora a Casa Civil tenha agendado reuniões com os municípios individualmente para explicar os detalhes da concessão.
— Apresentaram o projeto já formatado, sem chamar os prefeitos para discutir ou escutar sugestões nossas ou dos empresários. Uma iniciativa desse porte e que impacta tão severamente na vida das pessoas não pode ser definida desta forma. Não aceitaremos. Somos contrários — pontuou Gaspar Behne, prefeito de Lindolfo Collor e presidente da Amvag.
Prefeitos de cidades diretamente impactadas pela RS-239, como Carina Nath (Sapiranga), Oséas Garcia (Araricá) e até Giovani Feltes (Campo Bom) — ex-secretário da Agricultura do governo atual — criticam o fato de a rodovia nunca ter recebido investimentos da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR). A autarquia está prestes a ser extinta, assim que forem concluídas as concessões dos blocos de vias estaduais.

Durante anos, os municípios cortados pela RS-239 cobraram a EGR, sem sucesso, por investimentos como passarelas, retornos e até viadutos. A iluminação da rodovia estadual entre Estância Velha e Sapiranga foi toda custeada pelas próprias cidades.
Com o projeto do governo do Estado, a RS-239 passaria a contar com cinco pórticos de pedágio no sistema free flow, em substituição à única praça atual em Campo Bom. A tarifa atual de R$ 3,25 aumentaria para R$ 14,84 entre Novo Hamburgo e Taquara. Além disso, a nova RS-010 — alternativa à BR-116 apelidada de "rodovia do progresso", com trajeto ligando Porto Alegre à Sapiranga — também contaria com três pórticos, com custo total previsto de R$ 11,41.
Vereadores reagem
Pelo menos duas Câmaras de Vereadores de municípios impactados reagiram à proposta do governo do Estado. Em São Leopoldo, a presidente do Legislativo, Iara Cardoso (PDT), apresentou moção de repúdio à instalação de pedágios nas vias regionais. O texto também considera a medida "injusta e prejudicial à população trabalhadora e à economia do Vale do Sinos".
Os vereadores de Nova Petrópolis também se posicionaram contra a proposta, que prevê novos pórticos de pedágio na RS-235, que corta a Região das Hortênsias. O presidente da Câmara, Inspetor Robinson (Republicanos), prevê prejuízos econômicos e sociais para a população.
— Não basta o que esta região já sofreu com as enchentes, agora estaremos sendo penalizados com uma cobrança injusta e desproporcional — criticou, sob o apoio dos colegas de Parlamento.
Teste de fogo
Após enfrentar críticas do Vale do Taquari e do Norte do RS pela proposta ao bloco 2, o Piratini já apresentou um projeto mais formatado para o bloco 1. Serão aportados R$ 3 bilhões pelo Estado, metade para cada projeto, na tentativa de reduzir as tarifas.
Na Região Metropolitana, ficou de fora do mapa de pedágios a RS-118, para a ira dos outros prefeitos que consideram a medida injusta. Leite, entretanto, cumpre uma promessa firmada na campanha de 2022, quando assinou ofício se comprometendo a não instalar praças de pedágio na rodovia.
A região impactada pelo bloco 1 reúne cerca de 5 milhões de pessoas, metade da população do Estado. Como a previsão do Piratini é lançar edital em março e realizar o leilão em junho, Leite terá de conciliar as negociações para acalmar os ânimos e agradar os prefeitos com as articulações eleitorais de olho na sua sucessão.



