
Legado da COP30 para Belém, a revitalização do Parque Linear da Doca deve servir de inspiração para o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, que planeja, até o fim do seu mandato, dar o pontapé inicial nas obras de renovação do Arroio Dilúvio. A previsão foi informada durante entrevista ao Gaúcha Atualidade, direto da conferência do clima.
No Pará, Melo conheceu o espaço que ocupa cerca de um quilômetro no centro da capital paraense, com ciclovia, quiosques, mirantes, paisagismo e sistema de drenagem, integrado ao Porto de Belém e à Estação das Docas — uma versão nortista do Cais Embarcadero.
O que o prefeito chamou de "uma boa experiência" deve ser replicado na capital gaúcha, por meio de uma Operação Urbana Consorciada (OUC).
O instrumento, inédito em Porto Alegre, flexibiliza regras de ocupação do solo e autoriza construção de prédios mais altos. A prefeitura concede às construtoras o direito de construir mais do que o previsto para determinado terreno, e, em contrapartida, as empresas e investidores viabilizam um fundo que financia as obras de revitalização, despoluição e desassoreamento do arroio.
— Nós lançamos esse projeto na Europa e, semana passada, eu autorizei o secretário Germano (Bremm, do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade) a buscar R$ 202 milhões no BNDES. Aliás, estou aguardando uma agenda aqui na própria COP para falar com a Tereza Campello (diretora do banco) sobre isso, mas está bem encaminhado, que é a primeira fase — explica.
Em projeto apresentado no ano passado, a prefeitura estima que a revitalização dos cerca de 11 quilômetros do Arroio Dilúvio ao longo da Avenida Ipiranga deva custar algo em torno de R$ 4 bilhões. Para o parque linear em Belém foram investidos R$ 310 milhões.
— A operação consorciada começa com dinheiro público e depois ela tem uma parceria privada, que é o fundo que é constituído da operação consorciada urbana e que faz com que você constitua o parque linear. Então, como a orla levou tantos anos, eu quero ser o prefeito que deixe, pelo menos, o pontapé inicial desse processo, porque isso é uma obra de cidade, não é uma obra de governo. Quando eu falo do parque linear, claro que envolve despoluir o Dilúvio — reforça o prefeito.
Plano de adaptação climática
Sebastião Melo também falou sobre sua expectativa em torno da COP30, onde, nesta quarta-feira (12), vai apresentar o caderno com o planejamento climático para Porto Alegre. Com 75 páginas, o plano aborda 30 ações prioritárias para adaptar a cidade a eventos extremos, dentre seis ameaças identificadas (tempestades, inundação, deslizamentos e erosão, secas, ondas de calor e proliferação de vetores de doenças) e mitigar impactos dos gases de efeito estufa.
— A gente vem preparando a cidade desde 2021 com muitos temas invisíveis, que as pessoas não discutem, mas que são importantes, que são o inventário do gás estufa, as áreas de risco, o nosso escritório meteorológico, as estações de medição de ar, tudo isso. Agora, o povo quer saber das obras físicas, e nós avançamos muito. Primeiro foi colocar a cidade de pé. O mundo tem desastres, a gente sabe as dificuldades que passam para levantar uma cidade. A cidade está funcionando, nós perdemos a arrecadação no primeiro momento, mas voltamos os empregos, a questão dos eventos, da economia.
Com fortes críticas, Melo cobrou por um federalismo climático, ao defender que não se faz transição climática sem recurso. O prefeito quer ajuda dos países mais ricos para que os municípios tenham capacidade de enterrar fios, tratar esgoto e fazer drenagem urbana.
— Quem mais sofre com a questão climática são os pobres, são as pessoas vulneráveis. Então, se continuar desse jeito, os países ricos vão ficar mais ricos, os pobres vão ficar mais pobres. Não se faz transição energética plantando mais árvores, abordando zonas de calor e tudo isso se não tiver dinheiro. E não se faz isso com dinheiro municipal. Os governos nacionais, em geral, têm sido muito fracos nesse processo de transição energética.




