
Diante de dezenas de líderes estrangeiros, na abertura da Cúpula do Clima, o presidente Lula fez um discurso irretocável. Nas linhas e nas entrelinhas é perceptível a mão da diplomacia madura, que sabe elevar o tom sem queimar pontes. Sem a presença dos chefes de Estado dos países que mais poluem, a reunião preparatória para COP30 ficou parecendo um encontro de velhos colegas de faculdade que pensam parecido, mas não têm o poder de mundo como acreditavam quando eram jovens.
Quase tudo o que Lula disse foi óbvio, a começar pela conclusão de que "não podemos abandonar os objetivos de Paris". O problema é que nem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem o líder chinês Xi Jinping estavam lá para ouvir. Tampouco estava na sala o presidente russo Vladimir Putin, outro que não demonstra simpatia pela causa ambiental.
Quando disse que "interesses egoístas e imediatos preponderam sobre o bem comum" quando se trata de preservação ambiental, Lula estava se referindo, sem nominar, aos governos que não querem se comprometer com a redução das emissões de carbono.
O dedo da diplomacia na redação do discurso ficou claro neste trecho: "Para avançar, será preciso superar dois descompassos. O primeiro é a desconexão entre os salões diplomáticos e o mundo real. As pessoas podem não entender o que são emissões ou toneladas métricas de carbono, mas sentem a poluição. Podem não assimilar o significado de um aumento de um grau e meio na temperatura global, mas sofrem com secas, enchentes e furacões. O combate à mudança do clima deve estar no centro das decisões de cada governo, de cada empresa, de cada pessoa".
O simbolismo de realizar a COP na Amazônia foi destacado pelo presidente brasileiro em vários momentos, um deles em tom quase poético:
— Pela primeira vez na história, uma COP do Clima terá lugar no coração da Amazônia. No imaginário global, não há símbolo maior da causa ambiental do que a floresta amazônica. Aqui correm os milhares de rios e igarapés que conformam a maior bacia hidrográfica do planeta. Aqui habitam as milhares de espécies de plantas e animais que compõem o bioma mais diverso da Terra.
Mas houve também uma contradição. Foi quando defendeu a redução da dependência dos combustíveis fósseis, no momento em que o Brasil está tentando aumentar a produção de petróleo, movido pela lógica do desenvolvimento econômico e da exploração de reservas pelos países vizinhos:
— Estou convencido de que, apesar das nossas dificuldades e contradições, precisamos de mapas do caminho para, de forma justa e planejada, reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para esses objetivos.
É esse o "mapa do caminho" defendido pelas organizações de defesa do meio ambiente e que Lula citou como um passo necessário para transformar o discurso em prática. Reduzir o desmatamento é um desafio diário para o governo brasileiro, que precisa se preocupar não só com a Amazônia, mas com o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pampa, a Caatinga e o Pantanal, todos de alguma forma ameaçados pela ação do homem.






