
Ainda é tempo de os vereadores evitarem que a solidariedade em Porto Alegre seja atropelada pela burocratização e pela mania de legislar sobre tudo, incluindo a distribuição de marmitas ou de sanduíches para quem tem fome. A reportagem do jornalista Paulo Egidio, publicada em GZH, sobre o projeto da vereadora Comandante Nádia (PL), que está para ser votado na Câmara, é reveladora de um certo preconceito em relação aos pobres.
A pretexto de “organizar”, o que é uma boa intenção, o projeto inviabiliza o trabalho de voluntários que nas quatro estações do ano deixam suas zonas de conforto para ajudar a quem precisa.
Se o problema são os traficantes que extorquem os pobres que recebem comida em determinados pontos da cidade, que a Brigada Militar entre imediatamente em ação para coibir essa barbaridade. Se o motivo é o incômodo da vizinhança com os pobres que comem e deixam restos de comida e marmitas vazias nas ruas e praças, que a prefeitura, por meio do DMLU e da Secretaria de Inclusão, entre em campo para resolver o problema.
Se a proposta da Comandante Nádia já fosse lei, é de se perguntar como teria sido a distribuição de marmitas durante a enchente, quando milhares de pessoas cozinharam para quem estava desabrigado ou levava comida aos abrigos. Credenciamento, crachá, multa? Não, senhoras vereadoras, senhores vereadores. Suas avós certamente já diziam que “quem não ajuda, não estorva” (o certo seria “quem não ajuda, que não venha estorvar” os que estão trabalhando para saciar a fome de um miserável).
Não estamos falando aqui de restos de comida. Isso os moradores de rua buscam nos contêineres de lixo (sim, moradores, ainda que o politicamente correto seja pessoas em situação de rua). Para os restos dos restaurantes, existe uma legislação em vigor e ela é bem rigorosa em termos de exigências de higiene. Estamos falando de marmitas e de sanduíches preparados por quem ainda se comove com a miséria alheia.
Dá tempo de dissecar o projeto e extrair o que pode ser usado para “organizar as doações” sem desestimular a solidariedade. Que se façam emendas para melhorar ou que a própria vereadora Nádia retire a proposta de pauta e a refaça em outros termos.
É um apelo de quem ainda acredita nas boas intenções e no bom senso dos legisladores.
Aliás
O Partido Liberal sustenta um governo municipal de orientação liberal, que simplificou a emissão de alvarás e reduziu impostos e a burocracia. Agora propõe burocratizar uma iniciativa voluntária, privada, que não envolve recursos públicos, justamente para ajudar quem mais precisa.



