
Para entender o que se passou no Rio de Janeiro nesta terça-feira (28) é preciso voltar no tempo. A cidade mais bonita do Brasil, privilegiada pela natureza, antiga capital da República, passou por um processo de deterioração social e política que permitiu o avanço do crime organizado e das milícias. Nesse caldeirão fervem outros ingredientes, como a corrupção na polícia, o tráfico de armas, a leniência da Justiça, o crescimento desordenado, a ocupação irregular dos morros e a ausência do Estado.
Onde os serviços públicos não chegam, o crime ocupa o espaço vazio. O Comando Vermelho cresceu e se fortaleceu na ausência do Estado. A intervenção federal, que deveria ter colocado o Rio nos eixos, não passou de um sopro de sensação de segurança para os bairros da Zona Sul, enquanto a periferia seguiu escravizada pelos bandidos.
Moradores de comunidades vivem há muitos e muitos anos como reféns de facções criminosas que se enfrentam em disputas de território e vivem em confronto com a polícia. Nas trocas de tiros, inocentes morrem como efeito colateral dessa guerra sem fim, que se agravou com uma sequência de governos incompetentes, corruptos ou as duas coisas.
Nenhum Estado brasileiro teve tantos governadores presos como o Rio de Janeiro — todos libertados sem cumprir a pena ou sem julgamento. O caso mais notório é o de Sérgio Cabral, condenado há mais de 400 anos de prisão e que hoje leva uma vida de príncipe em sua cobertura com piscina, debochando das pessoas honestas enquanto saboreia seu drinque. Houve uma ocasião em que todos os conselheiros do Tribunal de Contas, menos uma, foram afastados por denúncias de corrupção.
Na guerra do Rio, os bandidos do Comando Vermelho aprimoraram seus métodos em relação à ocupação do Morro do Alemão, em novembro de 2010. Desta vez, em vez de fugir em fila indiana, os criminosos revidaram com bombas jogadas por drone, uma sofisticação que mostra o poder de fogo do crime organizado. O balanço da operação de hoje ainda é impreciso. Fala-se em 64 mortos, entre os quais quatro policiais, mas não se tem a identificação dos 60 para saber se são todos bandidos.
O que será do Rio depois desta terça-feira sangrenta, com bandidos trancando vias importantes e encurralando a população? Quem haverá de querer fazer turismo na Cidade Maravilhosa nos próximos meses, se no caminho entre o Galeão e a Zona Sul ou a Barra da Tijuca precisa passar pela Linha Vermelha ou Amarela, estratégicas para os criminosos? Que estrangeiro comprará pacote para o Carnaval de 2026?
Falando em 2026, será ano de eleição. Com uma classe política majoritariamente apodrecida e com um eleitorado que elege figuras diretamente envolvidas com o crime, resta pouca esperança de que as coisas melhorem. A crise da segurança no Rio é uma crise do Brasil e o governo federal terá de entrar em campo para ajudar a contê-la, sob pena de fuga em massa das empresas e dos turistas que são uma das principais fontes de receita do Estado.




