
Muita água ainda vai rolar por baixo da ponte (ou sobre os telhados de vidro) até que o cenário eleitoral no Rio Grande do Sul esteja definido. O mais provável é que as chapas só sejam montadas lá pelo final de março, às vésperas do prazo de desincompatibilização de quem ocupa cargos executivos e das trocas de partido ou de domicílio eleitoral.
É preciso separar o discurso público das articulações de bastidores para não correr o risco de interpretar uma declaração ao pé-da-letra, quando ela é parte do jogo de cena.
Quando o governador Eduardo Leite diz que a candidatura de Gabriel Souza (MDB) pode ser revista, não está rifando seu vice — está ganhando tempo para construir a unidade da base do seu governo. Leite quer evitar que o PP se jogue nos braços de Luciano Zucco (PL) e que o PDT caia no canto da sereia — no caso o PT, que acena com o apoio à candidatura de Juliana Brizola ao Piratini.
Todos os atores experientes no jogo eleitoral sabem que as pesquisas de hoje são irrelevantes para o resultado da eleição em outubro de 2026 e que fatos novos podem implodir ou alavancar uma candidatura.
Sem precedente
Gabriel Souza é o primeiro vice que disputará uma eleição desde a volta das eleições diretas, em 1982. Não há, portanto, parâmetro de comparação entre o seu desempenho (fraco) nas pesquisas e o de outros vices em condição semelhante.
Teoria da reciprocidade
O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, pressiona o PT a ceder a cabeça de chapa a Juliana Brizola como contrapartida ao apoio dos trabalhistas à reeleição do presidente Lula e a candidato do PT em 17 Estados.
Só que o próprio PDT está dividido em relação a Juliana, embora o discurso oficial diga o contrário. O grupo que está no governo Leite prefere manter a aliança com o centro a se vincular ao PT, remendo perder voto na sua base.
Enquanto isso, o PSOL diz que não negocia com os pedetistas enquanto estiverem na base de Leite, por entender que a frente da esquerda não pode ser encabeçada por partidos que estão no governo. A avaliação interna no partido é de que as negociações estão sendo "mal conduzidas" pelo PT.



