
Concluído o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus da trama golpista de 2022, ainda ecoam os trechos mais marcantes dos votos dos ministros. Um deles não é de uma sumidade do mundo jurídico, mas de um dos maiores escritores que a Humanidade já conheceu, o francês Victor Hugo, autor de Os miseráveis e de Os trabalhadores do mar, entre tantos outros menos conhecidos.
Cármen Lúcia, que começou lendo o poema Que país é este?, de Affonso Romano de Sant’Anna (cuja íntegra a coluna publicou no mesmo dia), escolheu um pequeno trecho de História de um crime.
No livro, Victor Hugo narra uma tentativa de golpe de Estado, em referência à dissolução da Assembleia Nacional Francesa por Luís Napoleão Bonaparte (Napoleão III), em 1851. O suposto diálogo entre um integrante da força armada e uma autoridade que resiste ao golpe é uma ode à democracia — ou a reafirmação de que não existe “golpe do bem”. Vale à pena ler de novo:
— Mas isso que você me propõe é um golpe de Estado.
— Você acredita nisso?
— Sem dúvida. Nós somos a minoria e seríamos a maioria. Nós somos uma porção da Assembleia e agiríamos como se fôssemos a Assembleia inteira. Nós, que condenamos a usurpação, seríamos os usurpadores. Nós, os defensores da Constituição, afrontaríamos a Constituição. Nós, os homens da lei, violaríamos a lei. É um golpe de Estado.
— Sim, mas um golpe de Estado para o bem.
— O mal feito para o bem continua sendo mal.
— Mesmo quando ele tem sucesso?
— Principalmente quando ele tem sucesso. Porque então se torna um exemplo e vai se repetir.




