
Por ser uma casa de homens e mulheres mais experientes do que a Câmara dos Deputados, o Senado deve sepultar a PEC da Blindagem, também conhecida como PEC da Bandidagem. Ao mesmo tempo, perde força a proposta de anistia ampla, geral e irrestrita, já rechaçada pelo relator Paulinho da Força (Solidariedade-SP) na Câmara.
A proposta de emenda à Constituição já tinha sido rechaçada por senadores influentes antes das manifestações de domingo, vigorosas nas principais capitais do Brasil, com ênfase para Rio de Janeiro e São Paulo. O relator do projeto na Comissão de Constituição e Justiça, Alessandro Vieira (MDB-SE), disse nesta segunda-feira (22) no programa Gaúcha Atualidade que seu relatório será pelo arquivamento.
Vieira tem dois motivos para tentar matar a PEC da Blindagem na CCJ do Senado. O primeiro é que ele considera a emenda inconstitucional. O segundo, pelo mérito mesmo. O senador está convencido de que a PEC favorece os criminosos e, se aprovada, permitirá que deputados, senadores e até os presidentes de partidos usufruam de uma espécie de salvo-conduto para cometer crimes, a começar pelo desvio de recursos de emendas ao Orçamento.
As manifestações de 21 de setembro marcaram a volta de pessoas que estavam sem motivação para ir às ruas havia vários anos. Não se fala aqui dos militantes de carteirinha, mas dos cidadãos que, na maioria das vezes, misturam-se à maioria silenciosa porque perderam a disposição para brigar por uma causa — qualquer uma. A PEC da Blindagem, somada ao projeto de anistia, fez transbordar o copo, tirou os artistas da sua zona de conforto, mobilizou pessoas de todas as idades e produziu imagens que os defensores dessas duas propostas não imaginavam possível.
Foi uma resposta ao Sete de Setembro, dominado pelo bolsonarismo? De certa forma, sim. Mas foi muito mais do que isso. Foi uma resposta ao desrespeito dos deputados que, majoritariamente, estão pensando no próprio umbigo e também aos ataques de Donal Trump contra a soberania brasileira — do tarifaço à perseguição a agente políticos por meio da cassação de vistos e da aplicação da tenebrosa Lei Magnitsky.
A gigantesca bandeira do Brasil estendida na Avenida Paulista fez contraponto aos "patriotas" que, no Sete de Setembro, exibiram no mesmo lugar uma bandeira dos Estados Unidos. Eis o exemplo mais concreto de duas imagens que valem por 2 mil palavras.
O ex-deputado Ibsen Pinheiro, que presidiu a Câmara e comandou o processo de impeachment de Fernando Collor, costumava dizer, citando Ulysses Guimarães, que o Congresso precisava ouvir o rugido das ruas.
— O que o povo quer, esta Casa acaba querendo — disse Ibsen às vésperas do impeachment, quando a Câmara ainda não tinha os votos necessários.
Desta vez, os defensores da anistia diziam que sua aprovação era um desejo do povo brasileiro. Não é o que dizem as pesquisas. Não foi o que as ruas mostraram no 21 de setembro. É possível que deputados e senadores decidam ir na contramão, contando que o eleitor tem memória curta e que ainda falta mais de um ano para a eleição, mas a maioria sabe que defender o indefensável pode acabar com uma carreira política.



