
O jornalista Fábio Schaffner colabora com a colunista Rosane de Oliveira, titular deste espaço
Tão logo as urnas consagraram a reeleição de Eduardo Leite, em 2022, o espectro político gaúcho mirou 2026. Havia então no horizonte três forças em confronto: uma oposição de direita, sustentada pelo bolsonarismo, outra de esquerda, liderada pelo PT, e a situação, trafegando pelo centro. Desde o início essa projeção ganhou rostos. Respectivamente, Luciano Zucco (PL), Edegar Pretto (PT) e Gabriel Souza (MDB).
O que ninguém esperava é que uma mulher de sobrenome icônico e com trânsito nas três vias ideológicas surgisse liderando as pesquisas e embaralhando a sucessão ao Piratini. Aos 50 anos, Juliana Brizola é o fato novo da eleição. O recall da disputa pela prefeitura de Porto Alegre, quando ficou em terceiro lugar ano passado, explica parte do capital político que ameaça, sobretudo, as pretensões de Gabriel e de Edegar Pretto.
Com 5% na última pesquisa Quaest, Gabriel começa a ser olhado com desconfiança pelos aliados, a ponto de dois partidos com assento no governo, PP e o próprio PDT, lançarem pré-candidatos sem entregar os cargos. Gabriel tem percorrido o Interior para se tornar mais conhecido, mas até o trunfo que lhe daria maior visibilidade — a posse como governador após renúncia de Leite para concorrer ao Senado — agora já é uma incógnita.
A tibieza inicial da candidatura de Gabriel estimula a ambição do PDT de liderar uma ampla coalizão de centro-esquerda, angariando não só o apoio de Leite — primeira pessoa a quem ela anunciou sua candidatura — como da frente liderada pelo PT. Presidente nacional do partido, Carlos Lupi levou esse pedido ao presidente Lula.
— Disse ao presidente que a candidatura da Juliana é nossa prioridade absoluta e está irreversivelmente colocada. Ele recebeu muito bem e diz que ela tem duas qualidades: é mulher e Brizola — contou Lupi à coluna.
Em contrapartida, Lupi afiançou suporte a candidaturas petistas em São Paulo, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte. O apoio a Juliana tem simpatia de uma ala heterogênea do PT gaúcho, que vai de Tarso Genro a Miguel Rossetto, mas esbarra na cúpula partidária, que não vê sentido em abrir mão da cabeça de chapa para um partido menor e que está aninhado no governo Leite.
Ciente do flerte cada vez mais escancarado com Juliana, petistas de alto coturno trabalham para isolá-la. Para tanto, vasculham as redes sociais para demonstrar a distância que ela mantém de Lula — a citação mais recente foi em março de 2024 — e citam o flerte do PDT com o bolsonarismo nos pequenos municípios.
Tal situação lembra os estertores do governo João Figueiredo, quando a falta de rumo da gestão fez a eminência parda do regime, Golbery do Couto e Silva, cunhar a seguinte analogia: “você pode percorrer os guichês da rodoviária pedindo desconto na passagem. Todos vão negar, mas se algum um vendedor conceder, fará uma pergunta: para onde quer ir?"
O presidente Figueiredo não sabia. Desde a ascensão do bolsonarismo, em 2018, o PT gaúcho acha que sabe. Mas nunca mais chegou ao segundo turno.




