
Não é preciso vestir o fardão da Academia Brasileira de Letras para ser imortal. Erico Verissimo não vestiu e é maior do que todos os seus contemporâneos que tomaram chá da tarde na ABL. O filho Luis Fernando jamais toleraria a rotina dos convescotes, mas tornou-se imortal pelas crônicas geniais que seguem cativando os leitores das dezenas de coletâneas lançadas pelo Brasil. Verissimo, o gênio tímido, parou de escrever quando o corpo mandou parar, talvez alertado de que a insanidade do Brasil mergulhado no radicalismo tornara seu ofício inviável.
Quando a doença silenciou o escritor genial, ZH continuou publicando crônicas atemporais por vários meses, mas fazia falta o Verissimo sincronizado com os fatos do dia a dia. Ele, que já era de poucas palavras, ficou ainda mais silencioso depois do AVC e aos poucos foi parando de se comunicar até com a família.
Suprema ironia: o homem que tão bem dominou as palavras por tantos anos foi abandonado por elas e passou os últimos anos cercado pelo amor da família, que aprendeu a adivinhar pensamentos na velha casa que foi de Erico, nos altos da Rua Felipe de Oliveira.
A obra que Verissimo deixa é tão extensa que as próximas gerações podem ler por muitos e muitos anos, até para entender a história do Brasil do fim do século 20 e início do 21 escrita com bom humor. O cronista deixa órfãos não apenas os filhos Pedro, Fernanda e Mariana, mas uma legião de admiradores que com ele aprenderam a gostar de ler.
Em meia dúzia de linhas Verissimo capturava os leitores que gostam de uma ironia colocada no lugar certo. Com suas cobras, desenho que abandonou há mais tempo, nos fazia rir de uma tirinha com pouquíssimas palavras. Quem não lembra de Dudu, o Alarmista?
Os personagens das crônicas de Verissimo são inesquecíveis. Tenho particular saudade da Dorinha Ravissante, a socialite que trocava de marido como quem troca as flores dos vasos de cristal e servia de escada para o cronista encantar seus leitores com metáforas da vida em sociedade. E o que dizer do Analista de Bagé? Nem sei se era politicamente correto brincar com a psicologia de um taura da campanha que criou a terapia do joelhaço, mas duvido que os analistas de verdade não tenham tido crises de riso ao largo da leitura.
E o Ed Mort? Aquele detetive atrapalhado que despachava num muquifo e só se metia em trapalhadas? Outro personagem que a gente nunca esquece. Se tivesse que escolher uma personagem só, acho que eu ficaria com a Velhinha de Taubaté, a última a acreditar no milagre brasileiro e no regime militar. Com a redemocratização, Verissimo matou a velhinha, mas eu muitas vezes me defino como herdeira dela, quando acredito em promessas de execução de obras por diferentes governos.
Verissimo conheceu o ódio que grassa nas redes sociais por se definir como um homem de esquerda. Não sei até que ponto a patrulha contribuiu para seu silêncio, mas testemunhei ataques brutais de incompetentes que não são capazes de escrever um parágrafo sem erros crassos.
Lembro de certa vez ter brigado com uma pessoa conhecida que desprezava a obra de Verissimo porque o considerava incoerente, por ser “um socialista com apartamento em Paris”. Disse a essa pessoa o que digo de Chico Buarque sobre o mesmo assunto:
— Eu ajudei a pagar esse apartamento em Paris.
— Como assim?
— Comprando os livros dele, ora, como comprei todos os discos do Chico e fui a todos os shows desde que conquistei minha independência financeira.
Gostaria de ter convivido mais com Verissimo e sua Lucia, a mulher maravilha que me atualizava sobre o estado de saúde dele, mas não quis ser invasiva nem inconveniente. Guardo na memória, como o melhor troféu recebido na carreira, um elogio que ele me fez na coluna, quando comecei a publicar textos de opinião em Zero Hora. Isso vale mais do que um Pulitzer.
Também ocupa um lugar especial da memória a noite em que tive o privilégio de mediar uma conversa com Verissimo no Centro Cultural CEEE, como parte da programação da Feira do Livro. Suei frio temendo que ele entrasse mudo e saísse calado, mas ele surpreendeu a mim e aos colegas de empreitada e encantou a plateia daquela noite de novembro.






