
A uma semana da entrada em vigor da tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, soa infantil e oportunista dizer que o governo Lula tem de negociar. Quem faz esse discurso sabe que o Brasil, por diferentes interlocutores, mostra disposição para negociar, mas não existe negociação possível quando o outro lado se recusa a sentar à mesa. Ou quando desde a largada impõe uma condição francamente inaceitável, sob pena de ferir de morte a soberania de um país.
Desde que anunciou as primeiras medidas deste segundo governo, Donald Trump vem blefando. Ameaça e recuo, volta a ameaçar e recua outra vez, testando os nervos dos parceiros comerciais. Só depois que encontrou em Xi Jinping um negociador com a mesma força, revidando suas tarifas como num jogo de pingue-pongue, Trump aceitou negociar com a China. Mas não foi só a pressão a resposta do líder chinês que operou esse milagre. Foi a pressão das empresas dos Estados Unidos, dependentes de insumos e de produtos acabados feitos na China.
A esperança do Brasil passa por esse caminho. Se é impossível fazer o que Trump quer, que é livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro na ação penal a que responde por tentativa de golpe, não adianta mandar uma comitiva de deputados, senadores, diplomatas ou bispos acampar em frente à Casa Branca. Trump vai apenas mostrar seu imenso desprezo por um país com quem o Brasil tem relação comercial há dois séculos. O presidente Lula implorar por uma audiência e ser humilhado diante das câmeras, como foi Volodimir Zelensky, está fora de cogitação.
Resta esperar que os consumidores de carne, café e suco de laranja dos Estados Unidos pressionem o governo de lá a recuar, alertando para o risco de inflação ou de desabastecimento. Que as empresas norte-americanas que dependem de insumos importados do Brasil mostrem que serão eles os maiores prejudicados por essa guerra comercial. E que os políticos republicanos percebam que o tarifaço foi um presente de Trump para o presidente Lula, que estava precisando de um discurso para reconquistar o eleitorado perdido e ganhou esse, o do respeito à soberania.
No curso prazo, não há muito o que fazer. No médio, o caminho será abrir novos mercados, tentar acelerar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, negociar com outros países afetados pelas tarifas trumpistas, como o Canadá e o México, e ampliar as vendas para países dos Brics, em especial a China e a Índia. Ninguém seria leviano a ponto de sugerir que se ignore os Estados Unidos como clientes, mas que se procurem alternativas temporárias para fazer frente às perdas imediatas.
O apoio e da solidariedade de dezenas de países membros da Organização Mundial do Comércio atestam que o errado é Trump e que ele pode acabar estimulando as trocas entre outras nações, para escapar da sua tirania e da síndrome de dono do mundo.





