
Está difícil entender a estratégia do governador Eduardo Leite para 2026, dado que seu sonho confesso é concorrer a presidente da República. É verdade que Leite não cometeu o erro de Tarcísio Freitas (Republicanos), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil), que no primeiro momento se jogaram na cerca elétrica para ficar bem com o eleitorado de Bolsonaro. Depois, quando perceberam o estrago provocado pelo tarifaço, Tarcísio e Zema tentaram dar uma polida no discurso, mas a gravação e o print são eternos.
Leite também nunca usou o boné com a sigla MAGA, de Make America Great Again, mesmo que essa “grandeza” signifique prejuízo para o Brasil, como se viu agora. O episódio deu ao governador gaúcho uma oportunidade de ser voz forte em defesa da soberania brasileira, das empresas, do agronegócio e dos trabalhadores brasileiros que poderão ficar desempregados se o tarifaço de 50% for mantido. E se quer ser "alternativa", "terceira via" ou seja lá o que for, tem de mostrar independência na relação com o presidente Lula e com o ex-presidente Bolsonaro.
Em vez de fazer um vídeo mais elaborado, como faz sobre diferentes assuntos, Leite só se manifestou quando foi perguntado sobre o tarifaço e deu uma resposta evasiva:
— As instituições são feitas por pessoas. Os seres humanos são falíveis. Falham, erram, acertam, e, naturalmente, nós temos muitas virtudes e tantos defeitos nas nossas instituições. Mas quem define e corrige as nossas instituições somos nós, os brasileiros, e não interferências de fora do país, isso não pode ser aceito de maneira nenhuma. De outro lado a gente observa o quanto que essa polarização radicalizada na política gera impactos negativos no país. A gente assiste a um debate de tentar lançar culpados pra cá ou pra lá quando na verdade o país deveria estar debruçado sobre ter negociações diplomáticas pragmáticas, preservando o interesse nacional.
Leite alinhou obviedades, mas não fez uma condenação dura da chantagem de Trump, nem da estratégia da família Bolsonaro que acaba punindo a economia brasileira na tentativa de livrar o chefe do clã do julgamento por uma tentativa de ataque à democracia. Se Leite não quer melindrar os bolsonaristas porque espera ter seus votos se passar pela corrida de obstáculo no PSD e chegar a candidato a presidente, perde tempo. Aos olhos do bolsonarismo, ele é um esquerdista — mesmo que se defina e adote políticas liberais.
No PSD, quem entra e quem lá já estava sabe que o candidato preferido de Gilberto Kassab é o governador Tarcísio Freitas. O PSD só terá candidato próprio se Tarcísio optar por disputar a reeleição. E o partido tem também Ratinho Júnior, o governador do Paraná. Se Leite for candidato ao Senado, será cobrado sobre seus dois governos e, também, sobre as posições que adotou em momentos dramáticos como este.






