
Para entender a extensão do escândalo da espionagem praticada na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) é preciso juntar tantos fios soltos que seria preciso desenhar. Falas de personagens vivos e mortos ajudam a explicar a operação da Polícia Federal que, nesta quinta-feira (25), bateu no gabinete do deputado Alexandre Ramagem, ex-chefe da Abin e ex-quase diretor-geral da Polícia Federal no governo de Jair Bolsonaro.
De volta ao começo, vale lembrar uma entrevista dada no Roda Viva pelo ex-ministro Gustavo Bebianno, um dos primeiros a cair no governo Bolsonaro. Bebianno contou que, certo dia, o vereador Carlos Bolsonaro apareceu em uma reunião dizendo que a Abin não era confiável, que seria preciso criar uma Abin paralela. A seu lado estava o general Augusto Heleno, que foi chefe do Gabinete de Segurança Institucional e anda sumido desde que deixou o governo.
Bebianno disse à época que a ideia de Carluxo era péssima e que poderia levar ao impeachment de Bolsonaro. Poucos meses depois, Bebianno foi encontrado morto. De acordo com a autópsia, vítima de infarto. Seu telefone, que conteria segredos cabeludos, desapareceu e virou lenda.
Corta para a reunião ministerial que resultou na queda do então ministro da Justiça, Sergio Moro. Na lavação de roupa suja, Bolsonaro reclamou da falta de informações confiáveis sobre investigações envolvendo seus filhos.
Moro, lembremos, embora ele pareça ter esquecido, saiu atirando. Chamou uma entrevista coletiva e reclamou da pressão de Bolsonaro por mudanças na Polícia Federal. Detalhou a demissão de Maurício Valeixo, então diretor-geral da PF, à revelia de Moro, que era ministro da Justiça. E contou que Bolsonaro pretendia colocar na PF um homem de sua confiança. Esse homem era Alexandre Ramagem.
No final de abril de 2020, Bolsonaro chegou a nomear Ramagem, mas uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, em resposta a ação movida pelo PDT, o obrigou a voltar atrás. Moraes alegou "desvio de finalidade" na decisão que suspendeu a nomeação. A Advocacia-Geral da União decidiu não recorrer e Ramagem nem chegou a sair da direção da Abin, que ocupava desde julho do ano anterior.
Lá ficou até março de 2022, quando saiu para concorrer a deputado. O que teria feito fora da lei nesse período é o foco da investigação da Polícia Federal.
Mais do que a produção de relatórios sobre pessoas que não representavam ameaça à República, como uma das promotoras do caso Marielle Franco, o que está sendo apurado é se (ou como) a Abin foi usada para espionar autoridades como ministros do Supremo Tribunal Federal, governadores de oposição e desafetos da família Bolsonaro. E qual o uso feito desses relatórios.
Aliás
Das coisas mais estranhas na Operação da Polícia Federal foi a apreensão de um notebook e um celular de propriedade da Abin no apartamento funcional de Alexandre Ramagem, que não tem mais ligação com a agência. No total foram apreendidos seis celulares e quatro notebooks.




