
No tempo de Drummond, Braga, Mendes Campos, Sabino e Verissimo, o cronista de imprensa não podia se dar ao luxo do bloqueio criativo para não cumprir prazos: tinha que parir a montanha sem o auxílio de laxantes como a IA, ferramenta capaz de dar uma mão a autores constipados. “Escreve aí uma crônica sobre terras raras e a morte da bezerra em 2,2 mil caracteres.”
Logo na primeira crônica de O Algoritmo Sou Eu (Arquipélago, 182 páginas), a autora Martha Batalha aborda os desafios do ofício, mas esnoba o auxílio do ChatGPT e honra o sobrenome chamando para a briga: “O que escrevo é a combinação única de tudo que vivi e li. Não é pontual e efetivo, mas orgânico e mutável. A minha escrita permanece se modificando pelo que leio e vivo, pelo contínuo treino da voz e do olhar. E pelos fracassos. Para cada milhão de palavras escritas, umas dez mil são publicadas”. Nascida em Recife, criada no Rio e morando na Califórnia, a jornalista e escritora estreou no romance com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, levado ao cinema por Karim Aïnouz em um filme vencedor da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes em 2019.
O Algoritmo Sou Eu reúne 58 textos publicados por Martha Batalha no jornal O Globo, onde escreve desde 2020. Com um estilo fluido, inteligente e (auto)irônico, divide com o leitor comentários tanto sobre temas gerais, como política internacional e pandemia, quanto a respeito das atribulações domésticas da maternidade e do casamento. Argumenta veementemente contra botar um cachorro dentro de casa para na crônica seguinte admitir que capitulou e agora se pega conversando com um enorme pastor-australiano babão na sala. Reflete sobre feminismo, imigração e tecnologia, mas também tira lições dos vestidos que nunca usou guardados no armário e das caprichosas torneiras com sensores que se recusam a funcionar.
Simpática a anacronismos como a leitura de jornal impresso e à reabilitação de palavras em desuso como “epinício” e “florilégio”, a autora segue acreditando na velha crônica, gênero que já gozou do prestígio de tesouro literário nacional. Como afirma na quarta capa do livro outra Martha, a nossa Medeiros, sua xará Batalha “senta conosco em torno de uma fogueira e transforma o cotidiano de cada um em magia universal”. Todo cronista parece ansiar por transcender a espuma dos dias e imprimir sua marca nos grandes temas do seu tempo. Às vezes, porém, não é preciso decifrar a complexidade do mundo: basta estar atento e sensível à vida comum e suas insignificâncias — ou “caganifâncias”, para lembrar outra palavra esquisita esquecida.



