
Por obra dessas insondáveis rimas com que às vezes a vida vai escrevendo seus versos, Glória Menezes e Laura Cardoso morreram praticamente no mesmo dia. As duas damas das telas e dos palcos partiram entre segunda-feira (17) à noite e terça à tarde (18), consternando o país inteiro e enlutando em particular quem acompanha o Festival de Gramado por estes dias. As atrizes foram homenageadas na própria terça pelo evento onde ambas já haviam sido celebradas anteriormente. Em 2005, Glória subiu ao palco serrano com o ator Tarcísio Meira para receber com o marido o Troféu Oscarito, prestigioso prêmio entregue também a Laura em 2023. Novamente graças ao misterioso roteiro da existência, a veterana atriz Léa Garcia, que dividiria a homenagem com Laura, faleceu na véspera da cerimônia — o Oscarito foi entregue a uma emocionada Laura, que homenageou a amiga cercada por mulheres de cinema de várias gerações.

A morte é sempre precoce, não importa a idade com que chegue. A pelotense Glória Menezes partiu aos 91 anos, a paulistana Laura Cardoso se foi com 98. Artistas cujas carreiras acompanharam a consolidação da televisão no país, Glória e Laura estrelaram novelas nos anos 1970 e 1980 que as tornaram mais do que populares: elas faziam parte das casas e famílias brasileiras. Para além de formar com o galã Tarcisão o casal mais glamouroso da teledramaturgia nacional, Glória destacou-se por atuações como a de O Pagador de Promessas (1962), filme dirigido por Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Sua trajetória foi marcada por pioneirismos como o de ser a primeira atriz a fazer uma novela diária na televisão — 2-5499 Ocupado, de 1963, estreia também do par romântico com Tarcísio — e protagonizar o primeiro programa integralmente exibido em cores pela nossa TV, Meu Primeiro Baile, episódio do Caso Especial.
Laura Cardoso começou ainda no tempo das radionovelas e construiu uma das carreiras mais longevas no teatro, no cinema e na televisão do Brasil. Foi a atriz com o maior número de participações em novelas e especiais de TV. Brilhava tanto no drama quanto na comédia, atuando em filmes como Terra Estrangeira (1995), O Outro Lado da Rua (2004) e Casa da Mãe Joana (2008).
O imprevisível poema, porém, não é apenas elegia: Gramado também testemunhou nesta semana a vitalidade de Fernanda Montenegro, que aos 96 anos encerra em uma rápida aparição o primeiro episódio da série Emergência 53, exibido em primeira mão no festival, com talento, bom humor e jovialidade. A rima é rica.

