
Em seu mais recente livro, que define como um “ensaio/memória”, Michel Laub escreve sobre dois artistas centrais na sua formação e as incidências das obras deles tanto em sua própria literatura quanto – e sobretudo – na sua maneira de encarar a existência e o mundo. Na adolescência, o cantor e compositor Renato Russo; na vida adulta, o escritor sul-africano J. M. Coetzee. O que o líder da banda de rock Legião Urbana e o Nobel de Literatura de 2003 têm em comum é uma das muitas perguntas que Verão na Névoa (Companhia das Letras, 2026, 91 páginas) busca responder a partir da análise de alguns aspectos das obras de ambos e de insights sobre os significados que esses criadores e seus trabalhos vêm projetando, consciente ou inconscientemente, em sua trajetória pessoal.
Uma das vozes mais talentosas da literatura brasileira contemporânea, Laub mistura ao longo do texto com fluência e inteligência as substâncias talvez imiscíveis de Russo e Coetzee. O aglutinador dessa digressão, redigida em parágrafos avulsos e apresentada como notas, é o diálogo dessas expressões artísticas com a experiência particular do autor, da juventude à maturidade, exposta como uma suposta franqueza – não esqueçamos que se trata de literatura – corajosa e por vezes desconcertante. Situada em algum ponto entre a autoanálise e a purgação, a triangulação que Laub propõe com o músico popular e o escritor sofisticado justifica-se pela irredutível singularidade que é a relação individual com a criação. “A arte também é aquilo que o público faz dela, e para esse público formado por uma só pessoa dá para juntar artistas tão distintos na mesma leitura”, justifica Laub.
Identifiquei-me com as percepções de adolescência do escritor a respeito de Renato Russo e da Legião, o que me levou a recordar minhas próprias descobertas, angústias, encantamentos e frustrações dessa época. Especialmente, pensei também nas influências artísticas que contribuíram para tornar-me quem hoje sou, para o bem e para o mal. Acima de tudo, a leitura de Verão na Névoa reafirmou para mim a certeza de que a arte pode também emancipar, redimir e mesmo curar – a despeito das intenções originais do artista e sua obra passarem eventualmente ao largo desse propósito. “Existe espaço para a arte investigar certas feridas, certos demônios pessoais impermeáveis ao espírito da cultura, sem que a investigação se torne um mero preciosismo individualista, alienado?”, questiona Laub. Não tenho dúvida da resposta.




