
O enredo é no mínimo inusitado: um mafioso nova-iorquino recruta um escritor para roubar o manuscrito de A Divina Comédia, dando início a uma aventura violenta e metafísica que conecta o presente e a Itália do século 14 em tramas paralelas. Em Nas Mãos de Dante, tanto o dublê de autor e ladrão contemporâneo quanto o poeta que escreveu a obra fundadora da língua italiana moderna são interpretados pelo ator Oscar Isaac. Exibido no Festival de Veneza do ano passado, o longa dirigido por Julian Schnabel estreia na Netflix no dia 24 de junho, marcando os 705 anos da morte de Dante Alighieri (1265-1321).
O poema A Divina Comédia está dividido em três cânticos: Inferno, Purgatório e Paraíso. O texto é uma viagem alegórica de Dante por esses planos, na qual avista personagens e recorda episódios que, no conjunto, configuram-se como uma severa denúncia social, religiosa e política contra a sociedade de Florença — cidade natal do poeta e que o expulsou, motivando as vinganças pessoais da Comédia. Na estrutura do poema, o Inferno é dividido em nove círculos, três vales, 10 fossos e quatro esferas — os sofrimentos foram distribuídos pelo autor com metódica crueldade —, cuja visita é conduzida pelo poeta romano Virgílio.
Cada círculo infernal é reservado a condenados por crimes específicos, como aqueles que abrigam os culpados por crimes capitais como luxúria, gula e ira. O nono círculo é o local mais profundo e terrível, destinado ao que o poeta considerava o pior dos pecados: a traição. Em uma subdivisão desse local fica a Antenora, cantinho guardado para os traidores da pátria, que ficam presos no gelo só com a cabeça de fora, forçados a abaixar o rosto para evitar o vento cortante. Nesse resort congelante estão figuras como Antenor de Troia, personagem da mitologia acusado de trair sua cidade para os gregos, e o conde Ugolino della Gherardesca, nobre italiano condenado por conspirar contra Pisa e que morreu de fome na prisão — segundo a fabulação de Dante, depois de devorar os próprios filhos e netos.
O filme Nas Mãos de Dante especula ficcionalmente sobre a atualidade de A Divina Comédia. Fico imaginando que, se fosse atualizar sua obra-prima hoje, Dante poderia construir um puxadinho para acolher aqueles que viajam ao Exterior com o intuito de entregar a pátria de bandeja em troca de vantagens pessoais e familiares. Esses merecem ir para o nono dos infernos.




