
Nem sempre as crianças foram consideradas em sua singularidade, isto é, encaradas como indivíduos cujas capacidades e limitações precisam ser compreendidas como distintas – e mesmo autônomas – do mundo adulto. Foi somente a partir da virada do século 16 para o 17, graças às conquistas do pensamento humanista, que a infância começou a ser vista na civilização ocidental como fase da existência que extrapola a mera preparação para a inserção na sociedade do trabalho e da produtividade.
A Invenção da Infância (2000), documentário de nome bonito e narrativa contundente escrito e dirigido por Liliana Sulzbach, parte desse conceito construído pela modernidade para mostrar como inocência, fragilidade e outros atributos culturalmente associados a crianças nos últimos 400 anos estão sendo malbaratados na contemporaneidade.
Entrevistando crianças de diferentes realidades sociais, a diretora gaúcha revela em seu ótimo filme que as exigências e expectativas depositadas atualmente nos pequenos não diferem muito daquelas cobradas dos grandes. Valem tanto para os filhos do privilégio, que desde cedo têm seu desempenho cobrado como se fossem executivos mirins, quanto para os jovens desfavorecidos que comprometem os estudos a fim de ajudar no sustento a família.
Um dos destaques do 30º Cine/PE, que se encerrou no último domingo, foi o longa-metragem A Fabulosa Máquina do Tempo. Aplaudido com entusiasmo no Festival de Berlim deste ano, o filme dirigido pela documentarista carioca Eliza Capai ganhou prêmios como o de direção e, inusual para um documentário, o de melhor atriz, concedido ao coletivo de meninas que reencenam para a câmera seu cotidiano em uma cidadezinha pobre do interior do Piauí. Por meio de conversas e brincadeiras, 15 crianças revelam uma realidade marcada por precariedade material, machismo estrutural e falta de perspectivas – mas também por criatividade surpreendente e alegria transbordante, empatia e sensibilidade.
Guaribas, município onde A Fabulosa Máquina do Tempo foi rodado, possuía um dos menores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil no começo dos anos 2000. O filme mostra como essa realidade foi substantivamente melhorada por conta do Bolsa Família. A despeito de quem esteja no governo, é obrigação do poder público fomentar políticas voltadas para os mais vulneráveis – em especial as crianças. A infância precisa urgentemente ser reinventada.




