
Celebramos em 5 de maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa, idioma falado por cerca de 300 milhões de pessoas em nove países. No dia seguinte, em Porto Alegre, o Teatro do Bourbon Country recebeu o show de lançamento de Oração ao Tempo, o novo e lindo álbum do português António Zambujo. Como sempre acontece quando escuto nossa língua falada com outros sotaques, comecei a divagar durante a apresentação nos sons, significados e prosódias, enquanto o cantor, compositor e violonista apresentava músicas e poemas, acompanhado por um talentoso sexteto.
Nossa bela língua tem muitas peculiaridades, como essa paixão pelas vogais. Ao longo do tempo, fomos nos diferenciando do latim original e de idiomas vizinhos como nosso irmão espanhol ao trocarmos encontros consonantais e hiatos por melódicos ditongos.
Por outro lado, os europeus que falam português costumam engolir vogais, decantando muitas palavras a seu sumo consonantal. Autor do excelente livro Assim Nasceu uma Língua: Sobre as Origens do Português, o linguista lusitano Fernando Venâncio chega ao exagero de afirmar que seus conterrâneos reduzem tudo a monossílabos, dando como exemplo a palavra “predecessores”, cujas cinco sílabas seriam ditas em Portugal de um só fôlego, soando algo assim como “prdsores”.
Pois assim deambulava eu entre zambujices poéticas, distanciado do conteúdo narrativo das canções para saborear palavras ditas pelo artista com outra embocadura fonética. “Paito” (peito), “curação” (coração), “deseijo” (desejo), “noit” (noite), “baijo” (beijo).
De repente, na lúdica e deliciosa canção Regresso à Infância, topo com estes versos: “Se o castigo foi sentir amor / Por alguém que nunca me vai querer”. Ainda que eu já tivesse escutado essa música antes, de orelhada o que ouvi foi “Por alguém que nunca me vai crer”, porque o primeiro “e” de “querer” foi comido pelo cantor. Não é a mesma coisa, né? No original, o sujeito é rejeitado por uma mulher que simplesmente não está a fim dele; já o que brasileiros como eu escutam é que ele foi dispensado porque a amada não acredita nele – versão corroborada pelo fato incontestável de que nunca dá para confiar em homem mesmo.
Como escreve em Esta Língua que Eu Amo o poeta Alberto de Lacerda, outro portuga craque de versos, o português é “esta maravilha assassinadíssima por quase todos que a falam” – mas também é “minha libertinagem, minha eterna virgindade”.





