
Dois homens batem boca separados por um vidro. Não há como um escutar o outro: mesmo estando cara a cara, o para-brisas entre os xingadores inconformados é mais do que um obstáculo translúcido – é também uma muralha simbólica que interdita o diálogo daqueles que, no final das contas, não estão mesmo interessados em escutar-se.
Eu Não Te Ouço é o nome de um filme que chegou aos cinemas e transforma em alegoria da incomunicabilidade um dos mais bizarros episódios da rocambolesca história recente da polarização ideológica no Brasil: o caso daquele tipo que, ao tentar impedir que um caminhoneiro furasse um bloqueio de estrada organizado por apoiadores de Jair Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022, se pendurou na frente do veículo e viajou como inusitado caroneiro por quilômetros. O meme saiu da internet e foi para o cinema em uma curiosa e inteligente ficcionalização escrita e dirigida pelo ator Caco Ciocler. O mesmo intérprete, o ótimo Márcio Vito, encarna tanto o motorista quanto o patriota do caminhão, acrescentando uma camada extra de ironia nessa farsa sobre a intolerância que tomou conta do debate público brasileiro nos últimos anos: ambos os personagens que negam ao antagonista o direito à opinião têm o mesmo rosto.
Os discursos hoje se entrincheiraram, e o som da metralha de lado a lado abafa as vozes a ponto de nem mesmo quem fala conseguir se escutar. É por isso que um evento como o Festival Fronteiras deve ser louvado: durante um par de dias na semana passada, Porto Alegre ouviu atentamente cerca de 50 personalidades nacionais e estrangeiras do pensamento e da cultura, que dividiram as mais diferentes ideias e reflexões em uma maratona de encontros, muitos deles gratuitos.
Essa versão repaginada do tradicional ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, implementada desde o ano passado, busca ampliar o público e tornar mais acessíveis suas propostas e conteúdos, diversificando o elenco de intelectuais, cientistas, imortais da ABL e pensadores incluindo também artistas, autores best-seller, jornalistas e figuras de destaque no panorama da cultura e do comportamento – gente das mais variadas formações e matizes ideológicos e políticos.
Ouvir o que os outros têm a dizer, mesmo discordando, é um ato de humildade que engrandece. Só escuta o mundo quem abre as janelas.






