
Brotou da noite para o dia. Os londrinos foram pegos de surpreso com um novo monumento na paisagem da cidade na manhã do último dia 30.
Assinada pelo artista urbano Banksy, uma escultura apareceu na Waterloo Place retratando um homem de terno andando resolutamente sobre um pedestal, enquanto carrega uma bandeira esvoaçante que lhe cobre o rosto. O pé esquerdo está suspenso no ar, sobre a borda do pódio, insinuando que o próximo passo será no vazio – e ele cairá.
A intervenção foi instalada em uma calçada do The Mall, avenida cerimonial projetada para celebrar as glórias do Império Britânico, perto de uma estátua equestre do rei Edward VII e do Memorial da Guerra da Crimeia.
O mais conhecido artista incógnito do mundo – com perdão do oxímoro – ganhou notoriedade ao estampar na paisagem urbana de grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos imagens e cenas em estêncil, de caráter ativista e político, que denunciam o consumismo, o belicismo, a xenofobia, a desigualdade social e outras mazelas contemporâneas.
Com essa nova obra – que as autoridades de Londres já declararam não pretender remover do lugar –, Banksy apresenta uma de suas mais mordazes e expressivas críticas. A sátira devastadora mira o nacionalismo e o patriotismo, mas o comentário impiedoso do artivista pode se desdobrar também a outras bandeiras que estupidamente usamos como antolhos – ideologias, crenças, preconceitos, fundamentalismos.
Atravessando o Canal da Mancha, outra figura marcha há tempos com uma bandeira. Exposta no Museu do Louvre, A Liberdade Guiando o Povo (1830) coloca no centro do quadro uma jovem vigorosa, que conduz avante um grupo heterogêneo – proletários, burgueses, um menino com duas pistolas – por sobre uma pilha de cadáveres em uma barricada. Na pintura do francês Eugène Delacroix, a alegoria encarnada em mulher popular está olhando para o lado, observando os companheiros de luta, enquanto ergue no alto atrás da cabeça a bandeira da França – a reverenciada “tricolore”. O povo antes, a nação depois.
A célebre tela em exibição no museu parisiense é uma peça de propaganda, sem dúvida, além de uma obra-prima. Todos sabemos os caminhos tortos que muitas vezes a Revolução Francesa tomou. O que Delacroix também lembra, porém, é que a liberdade só avança se não deixar ninguém para trás, se não tomar a dianteira de suas irmãs igualdade e fraternidade. E se não ficar cega às pessoas encoberta pela venda dos ideais.
As bandeiras devem servir como velas içadas, não como mortalhas sufocantes.


