
Um homem espanta-se certa manhã no espelho com o olhar refletido, considerando ser de alguém muito mais jovem do que ele; um outro deplora a fera que não julgava abrigar dentro de si e surge de maneira terrível. O primeiro exalta o prazer de ainda buscar frescor na vida, apesar de tudo; o segundo lamenta a incontornável maldade na matéria de que somos feitos. Dois dos maiores atores brasileiros, Cacá Carvalho e Eduardo Moscovis apresentaram comoventes espetáculos nesta semana dentro da programação do Festival Palco Giratório Porto Alegre. Em 70!, texto de Edyr Augusto Proença apresentado por Carvalho em uma leitura cênica, um ator divide com o público reflexões espirituosas a respeito do embate entre o envelhecimento físico e a juventude espiritual. Já em O Motociclista no Globo da Morte, Moscovis interpreta com crueza às vezes nauseante o monólogo de Leonardo Netto sobre um sujeito pacífico tragado pelo acaso em uma espiral de violência.
Experiências estéticas quase opostas – celebração e lástima –, as duas produções partilham da mesma economia de recursos para atingir o máximo de efeito: apenas um intérprete em cena, vestido com roupas corriqueiras, sentado em uma cadeira – no caso de 70!, ainda há o “luxo” de uma mesa de madeira. Nada além – e tudo mais: sinceridade nas palavras e na atuação, conexão sem artifícios com o público, consciência de que uma história bem contada tem a força ancestral de capturar corações e mentes. O poder do teatro de conjurar sortilégios com sua verdade essencial atravessa o tempo intacto, a despeito dos desenvolvimentos de sua linguagem e da concorrência com outras formas poéticas de fabular o mundo e a condição humana.
“Entram Bernardo e Francisco, dois sentinelas”, “Estrada no campo. Árvore. Entardecer”, “Cadeia pública, em Vitória de Santo Antão, PE”. Bastam essas rubricas e pronto: logo estamos angustiados com Hamlet na frente do Castelo de Elsinore, esperando Godot ao lado de Estragon e Vladimir, torcendo para Lisbela ficar com o prisioneiro. Um ator, um texto, um palco, uma luz, quem sabe uma cadeira. “Estamos em Marte”, anuncia o artista trepado no banquinho – e pá!, eis-nos imediatamente transportados para o planeta vermelho.
Talvez o teatro seja mesmo a melhor arte para materializar a definição do poeta e dramaturgo espanhol Calderón de la Barca: “A vida é sonho”.





