
Não vivemos todos na mesma época – ou, como se diz por aí, não estamos todos na mesma página. Na contemporaneidade, o tempo é fragmentado, acelerado, desarticulado e vivenciado de diferentes formas. Em O Aroma do Tempo (2009), o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han argumenta que a hipermodernidade estilhaçou a ideia de um tempo linear, contínuo e orientado por sentido, substituindo-o por uma multiplicidade de instantes dispersos que coexistem sem hierarquia.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, o deslumbrante documentário Pompeia: Sob as Nuvens (2025), disponível na plataforma MUBI, propõe uma outra abordagem sobre essa questão da simultaneidade dos tempos – poética, reflexiva e melancólica. O filme dirigido pelo italiano Gianfranco Rosi atravessa em contrastado preto-e-branco as densas nuvens do Vesúvio, pousa nas ruas e no cotidiano de Nápoles, navega e mergulha em seu mar e escarafuncha o subsolo da cidade e seu entorno. Essa arqueologia cinematográfica traz à luz uma história imemorial de sonhos e medos, tragédias e conquistas que coloca passado e presente lado a lado de maneira inusitada.
Pompeia: Sob as Nuvens acompanha atendentes do corpo de bombeiros local recebendo ligações de pessoas ansiosas para saber se os tremores de terra que sentiram não seriam prenúncio de uma iminente erupção – temerosas por certo de terem o mesmo destino daqueles habitantes de Pompeia e Herculano carbonizados pelo vulcão em 79 d.C. Trabalhadores de navios sírios descarregam pirâmides de grãos oriundos da Ucrânia em guerra no mesmo porto que recebia mercadorias na época do poderoso Império Romano. Um veterano professor auxilia atenciosamente em seus estudos crianças e jovens de diversas idades como os pedagogos da Antiguidade clássica. Autoridades vasculham os túneis cavados pelos “tombaroli”, ladrões que saqueiam os sítios arqueológicos há centenas de anos. Cabeças, troncos e membros de estátuas de eras distintas amontoam-se no ostracismo do porão de um museu.
“Não sabemos o que o amanhã nos reserva. No filme, você pode filtrar esse temor através da sua própria experiência”, diz o diretor, lembrando a citação de Jean Cocteau que abre o documentário – e que carrega consigo um senso de universalidade: “O Vesúvio cria todas as nuvens do mundo”. Nada desaparece por completo, tudo é palimpsesto. Aquele célebre casal calcinado na antiga Pompeia, cuja silhueta chegou até os dias de hoje conservada sob a lava, é uma prova de que um abraço de amor dura mais do que um império.



