
Assisti há um par de semanas ao lindo show Para Minha Tia Nana, em que a cantora Alice Caymmi interpreta temas do repertório de Nana Caymmi ao lado do pianista Francisco Eiras. Uma das músicas me comoveu particularmente por despertar reminiscências caras: Acalanto, escrita por Dorival Caymmi, avô de Alice, para o bebê Nana e gravada originalmente pelo compositor com a esposa, Stella Maris. Pais, filhos e avós unidos em uma canção de ninar que atravessa o tempo, dedicada a uma futura intérprete que anunciava no nome artístico um talento único para embalar com a beleza da voz.
Descobri Acalanto na infância, retornei a ela na idade adulta com as gravações da família Caymmi – considero o buda nagô baiano o maior compositor brasileiro –, finalmente eu próprio passei a nanar minha filha acompanhando a gravação no CD. Todas essas experiências e emoções me vieram à lembrança com Acalanto na poderosa voz de Alice no concerto do Espaço 373. Fui invadido pela paz que as cantigas de ninar instauram, reconfortando tanto quem escuta quanto quem canta. A música tem o dom de acalmar as feras que nos habitam.
Passadas de geração a geração desde épocas remotas ou criadas no presente, as canções de ninar conectam pessoas, aliviam inquietações e acarinham afetos. Uma das músicas mais interpretadas no mundo, Summertime, da ópera Porgy and Bess, é uma canção de berço que imagina uma vida melhor para um menino pobre do Sul dos Estados Unidos: “Papai é rico e mamãe é bonita”. Já o sucesso das reuniões dançantes Rock and Roll Lullaby, que muita gente pensa ser uma balada romântica, é na verdade um belo depoimento amoroso de um filho adulto lembrando a mãe adolescente: “Ela tinha apenas 16 anos e estava completamente sozinha quando eu nasci. Então crescemos juntos”.
Há muitos anos adquiri o hábito de dormir com música. Escolho sons que possam me acompanhar nessa jornada noturna, que é uma das coisas mais importantes da nossa vida e ocupa cerca de um terço dela. Em 2015, o compositor britânico de origem alemã Max Richter lançou Sleep, um álbum conceitual de oito horas e meia que funciona como trilha perfeita para uma noite de sono. “É uma tentativa de perceber como esse espaço em que a mente consciente está de férias pode ser um lugar para a música viver”, explica o músico. O acalanto vela por nós quando todos dormem, a noite também.





