
Há três décadas, em 3 de março de 1996, às vésperas, portanto, do Dia Internacional das Mulheres, morria Marguerite Duras. A escritora, roteirista e cineasta francesa, nascida em 1914 na antiga Indochina, marcou a literatura e o feminismo do século 20 com uma obra esteticamente inovadora e conceitualmente autorreferente. “Está tudo nos livros”, esquivava-se a autora arredia a entrevistas quando lhe perguntavam sobre sua vida.
Uma das artífices do Nouveau Roman, movimento que em meados dos anos 1950 propunha-se a modernizar a literatura privilegiando a subjetividade e os fluxos de consciência na narrativa, Duras colocou a figura feminina no epicentro desse “novo romance”. Em novelas, peças de teatro, roteiros de cinema e romances, a escritora revisitou a infância e a juventude no sudeste asiático, ficcionalizando memórias pessoais e episódios históricos, criando uma singular autossociobiografia que iria influenciar nomes como Annie Ernaux, Nobel de Literatura de 2022, e Édouard Louis – para ficarmos apenas em estrelas da literatura francófona contemporânea.
“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais”, escreve Marguerite Duras no início de O Amante, romance de maturidade lançado em 1984, em que mais uma vez recria o passado colonial tropical. “Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído”, prossegue a narradora antes de relembrar o ardente relacionamento que manteve na adolescência, em Saigon, com um empresário chinês mais velho.
Responsável pelo roteiro do clássico Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais, e realizadora do estranho, belo e hipnótico filme India Song (1975), Duras notabilizou-se no cinema e na literatura pelos relatos evocativos de amor, desejo, tédio, confronto social e choque cultural. Despia-se na escrita, borrando os limites de confissão e fabulação, conjurando os fantasmas íntimos e expondo as contradições da sociedade patriarcal. Contemporânea de Simone de Beauvoir – autora de O Segundo Sexo, obra que inaugurou o pensamento feminista moderno –, Marguerite Duras reivindicou para a mulher o direito elementar de ler o mundo a partir de si e escrever a própria história do jeito que quiser.



