
“Do que você está fugindo?”, pergunta a jovem ao correspondente de guerra desiludido que está dirigindo um conversível em Profissão: Repórter (1975). “Fique de costas para o banco da frente”, responde o motorista Jack Nicholson à companheira de jornada. Maria Schneider vira-se e contempla a estrada vazia ladeada de árvores que vai ficando para trás, braços abertos para o vento que desalinha seu cabelo.
Essa cena do antológico drama existencialista do cineasta italiano Michelangelo Antonioni serve de epígrafe visualmente poderosa para 1975: O Ano do Colapso (2025), excelente documentário de Morgan Neville disponível na Netflix, que revisita filmes rodados ou lançados naquele ano para analisar um ponto de inflexão em meados da década de 1970 – não apenas para o cinema hollywoodiano, mas também para a cultura e a política dos Estados Unidos. Vencedor do Oscar pelo doc igualmente empolgante A um Passo do Estrelato (2013), o diretor apresenta em 1975 uma narrativa fluida e coesa, que envolve o espectador com o ar do tempo de uma sociedade em crise, confrontada por velhos paradigmas em ruínas e novas perspectivas incertas.
A produção reúne entrevistas com diversas personalidades ligadas ao cinema, como Oliver Stone e Martin Scorsese – diretor do clássico Taxi Driver (1976), que apresentou ao mundo uma das figuras mais icônicas daquela década: o chofer Travis Bickle. Sujeito perturbado com a decadência moral e material de Nova York, o personagem interpretado por Robert De Niro decide limpar as ruas da escória e resgatar figuras como uma adolescente sexualmente explorada, encarnada por Jodie Foster – narradora do documentário.
A montagem instigante sugere diálogos inteligentes entre as cenas dos filmes citados, ilustrando vários temas: contracultura, Guerra do Vietnã, racismo, Watergate, paranoia e alienação, ascensão e queda da “nova Hollywood”, o surgimento dos blockbusters com Tubarão. Para além das discussões suscitadas, 1975 impressiona pela compilação de títulos de qualidade excepcional lançados nos cinemas naquele período: Chinatown, Um Estranho no Ninho, Nashville, Rede de Intrigas, Um Dia de Cão, A Conversação, Todos os Homens do Presidente, A Trama...
Um conjunto de obras inconformistas que, sobrevivendo ao contexto turbulento em que foram gestadas – uma época “pós-tudo e pré-nada”, como definida por alguém no documentário –, permanece provocadoramente atual 50 anos depois, ecoando em grandes filmes como Uma Batalha Após a Outra e O Agente Secreto.



