
O compositor estadunidense John Cage definia a música como “tempo organizado”. Para o russo Andrei Tarkovski, a função do cineasta é “esculpir o tempo”, moldando o material registrado a fim de criar uma visão artística, removendo o que é supérfluo e dando forma poética à experiência fílmica. Manusear o tempo das imagens e dos sons como matéria-prima era a maestria do diretor húngaro Béla Tarr, um mago do cinema contemporâneo morto nesta terça-feira (6) – justamente no Dia de Reis.
Tarr e sua obra voltaram ao debate por conta da entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2025 para László Krasznahorkai, escritor também húngaro que colaborou com o realizador em obras-primas como O Tango de Satã (1994) e O Cavalo de Turim (2011). Adaptação do romance mais célebre do autor, Sátántangó é um filme monumental, com 7h20min de duração – o tempo que se leva para ler o livro, segundo Tarr. Emulando o efeito literário, a versão cinematográfica nos traga para o mundo sem cores de um assentamento rural em que um grupo de camponeses leva uma existência miserável, afundados na lama de uma chuva incessante, à espera de algo que os salve da inércia e do torpor. Em O Cavalo de Turim, rodado também em preto-e-branco, um agricultor e sua filha vivem de maneira rústica em uma cabana isolada, dependendo de um velho e cansado cavalo para sobreviver precariamente.
Em Sátántangó, as almas danadas do local se embebedam em um bolicho e se entregam a uma patética danse macabre ao som de um acordeão tocando uma música que não sai do lugar, em uma longuíssima sequência que parece não ter fim. Já em O Cavalo de Turim, após a introdução do narrador, o vento que não para de soprar domina o áudio, e a primeira fala, “Está pronto”, dita pela menina ao colocar na mesa as batatas assadas, único alimento disponível, só se escuta depois de 20 minutos de projeção.
Há um tempo certo para o som e o silêncio, o movimento e a imobilidade. O formalismo rigoroso de Béla Tarr é capaz de transmitir ao espectador a ruína material e espiritual das histórias que conta. É uma arte cada vez mais escassa no cinema atual, mas que insiste em eventualmente se manifestar – como em Sonhos de Trem (2025), filme disponível no Netflix sobre a vida de um lenhador nos Estados Unidos nos princípios do século 20, escrito e dirigido por Clint Bentley e com uma belíssima fotografia colorida assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso e premiada nesta semana no Critics Choice Award.




