
Alberto Moravia (1907–1990) colocou o pé na estrada cedo. O escritor italiano ganhou o mundo aos 23 anos, percorrendo exaustivamente Europa, Ásia, África e Américas. Ao longo de 60 anos, registrou suas deambulações em relatos de viagem publicados em jornais e revistas de seu país. Uma seleção dessas crônicas escritas pelo autor dos romances O Conformista (1951), filmado por Bernardo Bertolucci, e O Desprezo (1954), levado ao cinema por Jean-Luc Godard e estrelado por Brigitte Bardot, é apresentada no livro Américas (Cosac, 365 páginas, seleção e tradução de Adriana Marcolini).
O volume reúne 42 artigos sobre países americanos: Estados Unidos, México, Cuba, Guatemala, Bolívia e Brasil – o mais antigo é de 1936, o mais recente, de 1970. Presidente na época do Pen Clube Internacional, Moravia veio ao país em 1960 por conta de um encontro da associação mundial de escritores no Rio de Janeiro. O autor de Os Indiferentes (1929) – considerada sua obra-prima – visitou também Belo Horizonte, Sabará, Recife, Salvador e Brasília. Impactado com a visão no alto do avião da novíssima Capital Federal ainda em construção, o viajante registrou duras observações sobre sua arquitetura monumental brotando em meio à terra vermelha do coração do Brasil: “Leva a pensar em um monte de bifes ensanguentados expostos no balcão de um açougueiro”. Ao mesmo tempo maravilhado e esmagado pelo gigantismo de Brasília, Moravia conclui em nota positiva sua avaliação sobre a cidade utópica: “Um ato pioneiro de coragem; o símbolo de uma vontade de conquista; a demonstração de uma possibilidade de futuro”.
Apesar de suas conclusões sobre o Novo Mundo serem muitas vezes eivadas de eurocentrismo, racismo e preconceito, o jornalista trotamundo é sempre agudo nas análises, escarafunchando o fulcro da questão sem condescendência. Como nesta certeira reflexão sobre a proverbial melancolia brasileira, ruminada enquanto aguardava bovinamente, misturado ao povo, a subida no Elevador Lacerda, na capital baiana: “Filas nas paradas dos bondes e dos ônibus, longas filas nas bilheterias dos cinemas e dos estádios esportivos, infinitas esperas nos aeroportos e estações, poder-se-ia dizer que o brasileiro está sempre esperando alguma coisa. Mas essas esperas não são nada mais que o símbolo de uma espera mais geral e mais basilar. Esse é o motivo da resignação e tristeza da sua paciência”.




